A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos. O Brasil registrou 18.318 casos novos em 2021, sendo o segundo país do mundo em número de casos novos, atrás apenas da Índia. A doença tem cura, tratamento gratuito no SUS e, quando diagnosticada precocemente, evita sequelas e interrompe a transmissão. Este guia reúne os dados oficiais verificados para você dominar o tema em provas de residência.
Dados oficiais: 18.318 casos novos no Brasil em 2021 (Boletim Epidemiológico Vol. 54 nº 07, Ministério da Saúde). Taxa de detecção: 8,59 por 100 mil habitantes. 761 casos em menores de 15 anos (4,1% do total). Fonte: gov.br/saude.
Agente etiológico e transmissão
O Mycobacterium leprae é um bacilo álcool-ácido resistente (BAAR), intracelular obrigatório, com tropismo por macrófagos e células de Schwann. Apresenta crescimento lento (tempo de geração de 12 a 14 dias) e período de incubação médio de 2 a 7 anos, podendo variar de menos de 2 a mais de 10 anos.
A transmissão ocorre por gotículas respiratórias (espirro, tosse ou fala) das vias aéreas superiores de pessoas infectantes (multibacilares) sem tratamento. É necessário contato próximo e prolongado. A infectividade é baixa: apenas uma pequena parcela das pessoas expostas desenvolve a doença. A transmissão não ocorre por abraço, compartilhamento de pratos, talheres, roupas de cama ou objetos.
Importante para provas: o paciente deixa de transmitir a doença já no início do tratamento, pela ação rápida dos medicamentos. Casos paucibacilares (PB) não são fontes importantes de transmissão, pois apresentam baixa carga bacilar. Os casos multibacilares (MB) constituem o grupo contagiante.
Classificação operacional: PB e MB
O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS) utilizam a classificação operacional para fins de tratamento, que divide os casos em dois grupos:
| Característica | Paucibacilar (PB) | Multibacilar (MB) |
|---|---|---|
| Lesões de pele | 1 a 5 lesões | Mais de 5 lesões |
| Baciloscopia | Negativa (sem bacilos) | Positiva (bacilos presentes) |
| Envolvimento neural | Sem comprometimento neural | Pode haver comprometimento neural |
| Tratamento | 6 doses em 6 meses | 12 doses em 12 meses |
Na prática clínica, também se utiliza a classificação de Ridley e Jopling, que descreve cinco formas clínicas em um espectro imunológico: indeterminada, tuberculoide, dimorfa (também chamada de borderline), dimorfa-tuberculoide, dimorfa-virchowiana e virchowiana (lepromatosa). A forma indeterminada é a mais precoce e inespecífica. A forma tuberculoide apresenta imunidade celular preservada, poucas lesões e baciloscopia negativa. A forma virchowiana apresenta imunidade celular comprometida, lesões numerosas, baciloscopia positiva e comprometimento neural difuso.
Diagnóstico
O diagnóstico da hanseníase é essencialmente clínico, realizado por meio de exame físico geral dermatológico e neurológico. A OMS define três sinais cardinais para o diagnóstico:
- Perda definitiva de sensibilidade em mancha hipopigmentada ou avermelhada na pele
- Nervo periférico espessado com perda de sensibilidade e/ou fraqueza muscular
- Detecção microscópica de bacilos em esfregaço de pele (baciloscopia)
Os exames complementares incluem baciloscopia (exame laboratorial de esfregaço de pele), histopatologia cutânea ou de nervo periférico sensitivo, e exames eletrofisiológicos para casos suspeitos de hanseníase neural primária ou comprometimento discreto.
Sinais e sintomas
- Manchas brancas, avermelhadas, acastanhadas ou amarronzadas com alteração de sensibilidade térmica, dolorosa ou tátil
- Comprometimento de nervos periféricos (espessamento) com alterações sensitivas, motoras ou autonômicas
- Áreas com diminuição dos pelos e do suor
- Sensação de formigamento ou fisgadas nas mãos e pés
- Diminuição ou ausência de sensibilidade e/ou força muscular na face, mãos e/ou pés
- Nódulos no corpo, às vezes avermelhados e dolorosos
Um ponto importante para provas: o diagnóstico em crianças exige avaliação mais criteriosa, e casos em menores de 15 anos sinalizam transmissão ativa na comunidade.
Tratamento: Poliquimioterapia Única (PQT-UV)
O tratamento da hanseníase é feito com a Poliquimioterapia Única (PQT-UV), equivalente ao MDT (Multidrug Therapy) da OMS. É gratuita e oferecida exclusivamente pelo SUS, com apresentações para adulto e infantil. Os medicamentos são rifampicina, dapsona e clofazimina.
Esquema paucibacilar (PB)
Para casos paucibacilares, o esquema utiliza dois medicamentos:
- Rifampicina: dose supervisionada mensal
- Dapsona: dose diária autoadministrada
A duração do tratamento é de 6 meses, com 6 doses supervisionadas mensais. Após a conclusão, o paciente recebe alta por cura.
Esquema multibacilar (MB)
Para casos multibacilares, o esquema utiliza três medicamentos:
- Rifampicina: dose supervisionada mensal
- Dapsona: dose diária autoadministrada
- Clofazimina: dose supervisionada mensal + dose diária autoadministrada
A duração do tratamento é de 12 meses, com 12 doses supervisionadas mensais. Após a conclusão, o paciente recebe alta por cura.
Observações clínicas importantes: A gravidez e o aleitamento não contraindicam a PQT-UV. Pacientes com peso inferior a 30 kg requerem ajuste de dose. A rifampicina reduz a ação de anticoncepcionais orais, o que deve ser orientado à paciente. Durante as consultas mensais, o paciente recebe uma nova cartela de PQT-UV e, assistido por profissional de saúde, faz uso da dose supervisionada. As demais doses são tomadas em domicílio.
Reações hansênicas
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Começar grátis →As reações hansênicas são episódios inflamatórios agudos que podem ocorrer durante ou após o tratamento. São a principal causa de sequelas e demandam reconhecimento precoce e tratamento imediato.
Reação Tipo 1 (Reação Reversa)
A reação Tipo 1 é uma reação de hipersensibilidade tardia (Tipo IV) que afeta a pele e os nervos. É mais frequente em casos multibacilares (especialmente da forma dimorfa). Caracteriza-se por:
- Inflamação das lesões de pele preexistentes (eritema, edema, dor)
- Comprometimento agudo de nervos periféricos (dor, espessamento, perda de função)
- Pode ocorrer durante ou após o tratamento
O tratamento é feito com prednisona ou dexametasona. O reconhecimento precoce do comprometimento neural é fundamental para prevenir sequelas irreversíveis.
Reação Tipo 2 (Eritema Nodoso Hansênico)
A reação Tipo 2 é uma reação de hipersensibilidade imediata (Tipo III, mediada por imunocomplexos) que afeta a pele e órgãos sistêmicos. Caracteriza-se por:
- Nódulos eritematosos dolorosos, geralmente em face, braços e pernas
- Febre, mal-estar, artralgia
- Pode haver comprometimento sistêmico (neurite, irite, orquite, linfadenopatia)
O tratamento de primeira linha é a talidomida. Em caso de comprometimento dos nervos, pode ser associada à prednisona. Na impossibilidade de uso da talidomida, pode-se utilizar prednisona ou pentoxifilina. Para reação crônica ou subintrante que não responde à talidomida, pode ser utilizada a clofazimina.
Talidomida: produção exclusiva por laboratório público (Funed-MG). Proibida a comercialização em farmácias (Lei nº 10.651/2003). Prescrição restrita a médicos cadastrados na vigilância sanitária com CRM. Notificação de Receita de Talidomida válida em todo território nacional (Lei nº 13.732/2018). Aquisição centralizada pelo Ministério da Saúde e distribuição via Secretarias Estaduais de Saúde.
Fenômeno de Lúcio
O Fenômeno de Lúcio é uma reação hansênica rara e grave que ocorre antes do tratamento em pacientes com hanseníase virchowiana (forma multibacilar polar). É mais comum em membros inferiores e caracteriza-se por lesões necróticas na pele.
- Histopatologia: necrose isquêmica de epiderme e derme, proliferação de células endoteliais e formação de trombos em grandes vasos da porção profunda da derme
- Apresentação clínica: lesões ulceradas e necróticas, principalmente em pernas e pés
- Tratamento: poliquimioterapia (PQT-UV), medidas de suporte, antibioticoterapia e transfusões de troca
⚠️ Alta para provas: O Fenômeno de Lúcio é o terceiro tipo de reação hansênica, além das Reações Tipo 1 (reversa) e Tipo 2 (eritema nodoso hansênico). Diferente das outras, ocorre antes do tratamento e é específico da forma virchowiana.
Fatores desencadeantes das reações hansênicas
As reações hansênicas podem ser desencadeadas por diversos gatilhos que o candidato deve conhecer para as provas:
- Infecções intercorrentes: gripes, infecções urinárias, problemas odontológicos
- Vacinação: aplicação de imunizantes novos não tomados anteriormente
- Gravidez e puerpério: alterações hormonais e imunológicas
- Medicamentos iodados
- Estresse físico e emocional: cansaço físico extremo ou esgotamento mental
- Traumas físicos, cirurgias e exposição solar excessiva
Alta por cura
O paciente recebe a alta por cura quando completa o tratamento medicamentoso com regularidade, ou seja, usa corretamente todas as doses dentro do prazo estipulado (seis ou doze meses, inclusive as supervisionadas) e é bem avaliado na última consulta médica.
- Paucibacilar (PB): alta após 6 doses supervisionadas mensais (6 meses)
- Multibacilar (MB): alta após 12 doses supervisionadas mensais (12 meses)
Quando necessário e a critério médico, pacientes podem ser encaminhados para Centros de Referência em hanseníase para avaliação clínica mais aprofundada e prescrição de medicamentos além da PQT-UV.
Prevenção e vigilância
As principais medidas de prevenção e controle incluem:
- Diagnóstico precoce e tratamento oportuno e regular com PQT-UV
- Investigação de contatos que convivem ou conviveram de forma prolongada com caso novo diagnosticado
- Aplicação de BCG em contatos
- Detecção precoce e tratamento adequado das reações e neurites
- Orientações sobre autocuidado
- Apoio à manutenção da condição emocional e integração social
A OMS recomenda o rastreamento de contatos (domiciliares, vizinhança e contatos sociais) acompanhado de dose única de rifampicina como profilaxia pós-exposição (SDR-PEP). O Brasil implementou a Estratégia Nacional para o Enfrentamento da Hanseníase 2023-2030, com metas de reduzir 55% da taxa de casos novos em menores de 15 anos até 2030, reduzir 30% de casos com grau de incapacidade física 2, e providenciar 100% das manifestações sobre práticas discriminatórias.
Medicamentos essenciais
| Medicamento | Indicação | Observação |
|---|---|---|
| Rifampicina | PQT-UV (PB e MB) | Dose supervisionada mensal; reduz ação de anticoncepcionais orais |
| Dapsona | PQT-UV (PB e MB) | Dose diária autoadministrada; risco de anemia hemolítica em G6PD deficiente |
| Clofazimina | PQT-UV (MB) e reação Tipo 2 crônica | Dose supervisionada mensal + diária autoadministrada; pigmentação cutânea |
| Prednisona | Reação Tipo 1 e Tipo 2 com neurite | Corticosteroide sistêmico; primeira linha para neurite |
| Talidomida | Reação Tipo 2 (eritema nodoso hansênico) | Primeira linha para ENH; prescrição restrita; teratogênica |
| Pentoxifilina | Reação Tipo 2 (alternativa à talidomida) | Esquema terapêutico alternativo |
Epidemiologia no Brasil
Segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (Volume 54, nº 07, 2023), o Brasil registrou 18.318 casos novos de hanseníase em 2021, posicionando-se como o segundo país do mundo em casos novos, atrás apenas da Índia. O país concentra 92,4% dos casos das Américas e aproximadamente 13% do total mundial (140.594 casos novos no mundo em 2021).
A taxa de detecção foi de 8,59 casos novos por 100 mil habitantes em 2021, classificada como parâmetro médio pela OMS. Para contextualizar, em 2012 essa taxa era de 17,17, representando uma redução de aproximadamente 50% em uma década. A prevalência no final de 2021 foi de 22.426 casos em tratamento, com taxa de prevalência de 1,05 por 10 mil habitantes.
Um indicador importante é a detecção em menores de 15 anos: 761 casos novos em 2021 (4,1% do total do Brasil). Casos em crianças sinalizam transmissão ativa na comunidade e são um marcador de vigilância em saúde prioritário.
Segundo a OMS, em 2024 o Brasil continua reportando mais de 10.000 casos novos anualmente, juntamente com Índia e Indonésia.
Como se preparar para questões de hanseníase
A hanseníase é um tema recorrente em provas de residência médica, especialmente em questões de infectologia, dermatologia e medicina preventiva. Os pontos mais cobrados são:
- Classificação operacional PB vs MB e suas implicações para tratamento
- Esquema PQT-UV: medicamentos, duração e número de doses
- Reações hansênicas: Tipo 1 (prednisona) vs Tipo 2 (talidomida)
- Diagnóstico clínico: sinais cardinais da OMS
- Transmissão: gotículas respiratórias, contato prolongado, baixa infectividade
- Alta por cura: critérios (6 doses PB, 12 doses MB)
- Medicamentos e efeitos adversos: rifampicina (anticoncepcionais), dapsona (G6PD), clofazimina (pigmentação), talidomida (teratogenicidade)
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Conclusão
A hanseníase permanece um desafio de saúde pública no Brasil, mas tem cura e tratamento gratuito. O diagnóstico precoce, baseado nos sinais cardinais da OMS, e o tratamento oportuno com PQT-UV são os pilares do controle. As reações hansênicas demandam reconhecimento imediato para prevenir sequelas. Para provas de residência, domine a classificação PB vs MB, os esquemas terapêuticos, as reações e seus tratamentos, e os critérios de alta por cura.
Fontes oficiais consultadas: Ministério da Saúde (gov.br/saude), FAQ oficial do Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde (WHO), Boletim Epidemiológico Vol. 54 nº 07 (2023).



