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    Especialidades21 min de leitura06 de jun. de 2026

    Cefaleia em Salvas no PS: Diagnóstico e Manejo Completo

    Dra. Lara Santos Rocha
    Dra. Lara Santos Rocha
    Residente de Clínica Médica — HC-USP-RP (FMRP-USP) · CRM-SP 285250
    Cefaleia em Salvas no PS: Diagnóstico e Manejo Completo
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    Cefaleia em salvas é uma das condições mais devastadoras que cruzam a porta de um pronto-socorro — e uma das mais gratificantes de tratar quando o médico reconhece o quadro a tempo. Dor unilateral excruciante na região orbitária, lacrimejamento, ptose, agitação psicomotora: esse conjunto de sinais forma uma síndrome tão característica que o diagnóstico é essencialmente clínico, baseado nos critérios da Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3). No PS, cada minuto conta, e saber iniciar a oxigenoterapia em alto fluxo ou o sumatriptano subcutâneo pode interromper a crise em poucos minutos.

    Este artigo traz o guia completo para diagnóstico e manejo da cefaleia em salvas na emergência — dos critérios diagnósticos ao fluxograma passo a passo, passando por contraindicações, tratamento preventivo e novidades terapêuticas. Se você é residente ou generalista que atura em PS, este conteúdo vai direto ao ponto que importa no plantão. ICHD-3 — International Classification of Headache Disorders, 3ª edição

    O que é cefaleia em salvas?

    A cefaleia em salvas é uma cefaleia primária trigêmino-autonômica caracterizada por dor unilateral excruciante na região orbitária ou supraorbitária, acompanhada de sintomas autonômicos ipsilaterais — lacrimejamento, ptose palpebral, miose pupilar, rinorreia, hiperemia conjuntival e sudorese facial. Cada crise dura entre 15 e 180 minutos sem tratamento, e o paciente tipicamente apresenta agitação psicomotora intensa, andando de um lado para outro, ao contrário do que se vê na migrânea, onde o paciente busca repouso.

    Trata-se da forma mais comum entre as cefaleias trigêmino-autonômicas. A prevalência na população geral é inferior a 1%, com proporção homem:mulher de aproximadamente 4:1. Mais de 80% dos pacientes diagnosticados são tabagistas, e história familiar positiva está presente em uma parcela significativa dos casos, sugerindo componente genético relevante.

    Fisiopatologia: o papel do hipotálamo

    A fisiopatologia envolve ativação disfuncional do hipotálamo posterior, que funciona como gatilho central dos ataques. Estudos de neuroimagem funcional demonstram ativação hipotalâmica bilateral durante as crises, o que explica a periodicidade circadiana e sazonal tão marcante: os surtos tendem a ocorrer em horários previsíveis, frequentemente no início do sono, e se repetem com regularidade ao longo de semanas ou meses.

    A via efetiva da dor envolve o nervo trigêmeo (componente sensitivo) e o sistema nervoso parassimpático via nervo facial (componente autonômico), com ativação do gânglio esfenopalatino. Essa dupla ativação explica simultaneamente a dor excruciante e os sintomas autonômicos que definem a síndrome. Cefaleias na emergência: como diferenciar primárias de secundárias

    Como diagnosticar cefaleia em salvas no PS

    Critérios diagnósticos ICHD-3 aplicados ao PS

    Diagnosticar cefaleia em salvas na emergência depende de reconhecer um padrão clínico muito específico. A ICHD-3 organiza o diagnóstico em cinco critérios:

    1. Critério A — Número mínimo de crises: pelo menos cinco crises ao longo da vida, para excluir dores isoladas que mimetizam o padrão.

    2. Critério B — Características da dor: dor unilateral, de intensidade severa ou muito severa, localizada na região orbitária, supraorbitária ou temporal. Classicamente descrita como "uma ponta de broca" ou "um ferro em bracingo no olho".

    3. Critério C — Duração sem tratamento: cada crise não tratada dura entre 15 e 180 minutos. Dores com menos de 15 minutos sugerem neuralgia do trigêmeo ou SUNCT/SUNA; dores com mais de 3 horas levam a pensar em migrânea prolongada.

    4. Critério D — Frequência: durante o período ativo, as crises ocorrem com frequência de uma a oito por dia, com periodicidade notória — muitos pacientes relatam que a dor desperta no mesmo horário noturno todas as noites.

    5. Critério E — Sintomas autonômicos: pelo menos um dos seguintes sinais deve acompanhar a dor do mesmo lado: lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal ou rinorreia, edema palpebral, sudorese frontal ou facial, ptose palpebral e/ou miose pupilar.

    Forma episódica versus forma crônica

    O ICHD-3 distingue dois subtipos com implicações prognósticas e terapêuticas diferentes:

    • Forma episódica: os períodos de salvas duram de 7 dias a 1 ano, separados por remissão igual ou superior a 3 meses. É a apresentação mais comum.
    • Forma crônica: as crises persistem sem remissão ou com remissão inferior a 3 meses, exigindo estratégia de profilaxia de longo prazo mais agressiva.

    No PS, a distinção imediata nem sempre é possível — o paciente pode estar indo ao médico durante sua primeira janela de crises. Questionar sobre episódios semelhantes nos últimos meses ou anos e sua periodicidade sazonal já fornece a informação necessária.

    Sinais autonômicos cranianos: como reconhecê-los no exame

    • Lacrimejamento: aumento no olho ipsilateral, frequentemente o primeiro sinal notado.
    • Hiperemia conjuntival: olho vermelho sem secreção purulenta.
    • Rinorreia ou congestão nasal: nariz escorrendo ou entupido do mesmo lado da dor.
    • Edema palpebral: inchaço discreto da pálpebra superior ipsilateral.
    • Sudorese frontal e facial: transpiração localizada na hemiface do lado da dor.
    • Ptose e/ou miose: queda parcial da pálpebra e pupila contraída — melhor avaliadas com lanterna comparando ambos os olhos.

    Dica prática: peça para o paciente fotografar os olhos durante uma crise. Ptose e hiperemia são transitórias e podem desaparecer antes da avaliação — a foto serve como documentação visual que corrobora o diagnóstico.

    Agitação psicomotora: o sinal-chave que separa da migrânea

    Na migrânea, o paciente busca silêncio e escuridão. Na cefaleia em salvas, o oposto: o paciente anda de um lado para o outro, balança o tronco, não consegue ficar deitado. Essa inquietação é tão característica que ver um paciente com dor unilateral orbitária intensa perambulando pelo setor de emergência já eleva drasticamente a suspeita.

    Na prática da medmentorIA, quando o estudante acessa o conteúdo de cefaleias primárias, esse raciocínio de diferenciação — incluindo o comportamento de agitação versus imobilidade — aparece como ponto de fixação em questões comentadas que treinam exatamente esse corte diagnóstico no PS. cefaleias primárias

    Critério ICHD-3
    A ≥ 5 crises na vida
    B Dor unilateral, severa, orbitária/supraorbitária/temporal
    C 15–180 min sem tratamento
    D 1 a 8 crises/dia
    E ≥ 1 sintoma autonômico ipsilateral

    Diagnóstico diferencial no pronto-socorro

    Em um cenário onde 2 a 4% das visitas a emergências são motivadas por cefaleia não traumática, a capacidade de diferenciar as três cefaleias primárias mais comuns — salvas, migrânea e tensional — faz toda a diferença entre um manejo adequado e a perda de uma janela terapêutica crucial.

    Tabela comparativa: salvas vs migrânea vs tensional

    Característica Cefaleia em Salvas Migrânea (Enxaqueca) Cefaleia Tensional
    Localização Unilateral, periorbitária/temporal Unilateral (pode alternar), fronto-temporal Bilateral, "em faixa" ou difusa
    Intensidade Excruciante, "pior dor da vida" Moderada a grave Leve a moderada
    Qualidade Perfurante, em pontada Pulsátil Em aperto/pressão
    Sintomas autonômicos Obrigatórios: lacrimejamento, rinorreia, ptose, agitação Náusea, vômito, fotofobia, fonofobia Ausentes
    Comportamento Inquietação, não deita, anda de um lado para outro Repouso em ambiente escuro e silencioso Geralmente mantém atividades
    Duração da crise 15 a 180 minutos 4 a 72 horas 30 minutos a 7 dias
    Frequência 1 a 8 crises/dia por semanas, com remissão Variável (esporádica a crônica) Episódica a crônica
    Tratamento agudo O₂ 100% máscara não rebreathing (12–15 L/min) + Sumatriptano SC 6 mg AINES + triptano (oral/SC) AINES (paracetamol, ibuprofeno)

    O mnemônico SNOOP: quando desconfiar de algo mais grave

    Nem toda cefaleia no PS é primária. O mnemônico SNOOP identifica red flags para cefaleias secundárias:

    • S — Sinais sistêmicos: febre, perda de peso, história de neoplasma ou imunossupressão.
    • N — Déficit neurológico focal: fraqueza motora, alteração visual persistente, déficits de linguagem.
    • O — Início súbito (thunderclap): dor que atinge intensidade máxima em menos de 1 minuto — clássico de hemorragia subaracnoidea.
    • O — Primeira crise após 50 anos: cefaleia nova nessa faixa etária pede investigação rigorosa.
    • P — Padrão mudante ou progressivo: dor piorando em frequência ou intensidade ao longo de semanas.

    Quando qualquer letra do SNOOP é positiva, a investigação com neuroimagem se torna mandatória.

    Exames de imagem: quando e o que pedir

    • TC de crânio sem contraste: primeiro exame quando o paciente chega com início súbito (thunderclap), para excluir hemorragia subaracnoidea. Alta sensibilidade para sangue agudo nas primeiras 6 horas.
    • RM de crânio com protocolo de seio cavernoso e hipófise: exame preferencial quando há sinais de alarme positivos no SNOOP, primeira crise atípica ou dúvida diagnóstica significativa.

    O diagnóstico da cefaleia em salvas típica é clínico. Se o paciente preenche todos os critérios e não apresenta red flags, a imagem não é obrigatória. Expor o paciente a exames desnecessários atrasa o tratamento e sobrecarrega o sistema.

    Para aprofundar o mnemônico SNOOP e suas aplicações, confira o material dedicado sobre [red flags em cefaleia]Mnemônico SNOOP para red flags em cefaleia. Se precisar revisar o diagnóstico e manejo da migrânea na emergência, o conteúdo específico sobre [enxaqueca no PS]Enxaqueca: diagnóstico e manejo no pronto-socorro está disponível para consulta.

    Recomenda-se a revisão da revisão sistemática disponível no PubMed sobre cefaleia em salvas para evidências atualizadas sobre fisiopatologia, diagnóstico e tratamento PubMed — Cluster Headache: Pathophysiology, Diagnosis, and Treatment (revisão sistemática).

    Diagnóstico Diferencial das Cefaleias

    Comparação rápida para uso no Pronto-Socorro

    Critério ⚡ Cefaleia em Salvas 🧠 Migrânea 🔄 Cefaleia Tensional
    Localização Unilateral periorbitária Unilateral frontotemporal Bilateral difusa
    Característica Lancinante / "furo" Pulsátil / latejante Pressão / aperto
    Intensidade ⚠️ Excruciante Moderada a intensa Leve a moderada
    Duração 15–180 min 4–72 horas 30 min – 7 dias
    Sintomas autonômicos ✅ Lacrimejamento, rinorreia, ptose Náusea, fotofobia, fonofobia ❌ Ausentes
    Comportamento durante crise Inquietude / agitação Repouso, isolamento Sem alteração
    Frequência 1–8 episódios/dia Variável (episódica) Diária ou quase diária

    💡 Dica clínica:

    A cefaleia em salvas é a única cefaleia primária que causa agitação intensa durante a crise — o paciente geralmente anda de um lado para outro, ao contrário da migrânea.

    Tratamento da crise aguda no PS

    Quando o paciente chega ao pronto-socorro com dor excruciante unilateral orbitária, lacrimejamento e agitação psicomotora, cada minuto conta. O manejo precisa ser rápido, assertivo e baseado em evidências.

    Oxigenoterapia: a primeira linha que salva

    A oxigenoterapia inalatória é o tratamento de escolha para a crise aguda:

    • Oxigênio a 100%, em alto fluxo, na faixa de 12 a 15 L/min
    • Administrado por máscara não rebreathing com reservatório
    • Tempo de aplicação: 15 a 20 minutos contínuos
    • Reavaliar o paciente após 20 minutos

    A eficácia é impressionante: a maioria dos pacientes apresenta alívio significativo em até 15 minutos. O mecanismo envolve vasoconstrição cerebral mediada pela hiperóxia e modulação do gânglio trigeminal. É seguro, barato e deve ser iniciado imediatamente.

    Dica prática: posicione o paciente sentado ou levemente reclinado. A máscara precisa estar bem vedada — qualquer vazamento reduz a concentração de O₂ entregue e compromete a resposta.

    Sumatriptano subcutâneo: quando o O₂ não basta

    Se a oxigenoterapia for insuficiente ou indisponível, o sumatriptano 6 mg por via subcutânea é a segunda linha consagrada.

    • Início de ação: 10 a 15 minutos
    • Via: subcutânea (coxa ou abdome)
    • Pode ser repetido após 24 horas, respeitando o limite máximo diário

    Efeitos adversos mais comuns: parestesia, tontura, sensação de calor, dor no local da injeção, sensação de aperto no peito (geralmente transitória e benigna).

    Contraindicações dos triptanos: atenção redobrada

    Os triptanos são vasoconstritores e têm contraindicações cardiovasculares absolutas. NÃO usar sumatriptano em pacientes com:

    • Doença arterial coronariana conhecida ou suspeita
    • História prévia de AVC ou AIT
    • Hipertensão arterial não controlada
    • Doença vascular periférica
    • Migrânea com aura hemiplegica ou basilar
    • Uso concomitante de derivados de ergotamina ou IMAO

    Na prática do PS: sempre checar história cardiovascular antes de prescrever. Um ECG e uma anamnese rápida podem evitar complicações graves.

    Alternativas quando o sumatriptano não é opção

    • Sumatriptano intranasal 20 mg: quando a via subcutânea não é viável. Início de ação mais lento, mas ainda eficaz.
    • Octreotida subcutânea 100 mcg: alternativa em pacientes com contraindicação cardiovascular aos triptanos. Age como análogo da somatostatinha, modulando a via trigêmino-autonômica, com perfil cardiovascular mais seguro.

    O que NÃO fazer: erros que pioram o quadro

    • Opioides são ineficazes para dor neurovascular e podem cronificar o quadro. NÃO usar.
    • Analgésicos comuns (dipirona, paracetamol, AINEs) não têm velocidade de ação suficiente para uma crise que atinge intensidade máxima em segundos. Não prescrever como primeira linha.
    • Evitar procedimentos invasivos desnecessários sem indicação — eles atrasam o tratamento efetivo.

    Resumo da conduta no PS:

    1. O₂ 100% — 12-15 L/min — máscara não rebreathing — 15-20 min
    2. Se falha: sumatriptano 6 mg SC (se sem contraindicação cardiovascular)
    3. Alternativas: sumatriptano intranasal 20 mg ou octreotida 100 mcg SC
    4. Nunca: opioides, analgésicos comuns como primeira linha

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    Tratamento preventivo (profilático)

    O tratamento preventivo deve ser iniciado já na primeira consulta, concomitantemente à terapia abortiva. O objetivo é reduzir a frequência e a intensidade das crises enquanto o paciente aguarda o encaminhamento neurológico especializado — e esse encaminhamento é mandatório, pois o ajuste de doses e o monitoramento laboratorial exigem acompanhamento contínuo.

    Verapamil — primeira linha profilática

    O verapamil é o medicamento de escolha para prevenção, tanto na forma episódica quanto na crônica. A dose inicial é de 80 mg, 3 vezes ao dia, com titulação gradual conforme a resposta clínica, podendo chegar a doses mais altas divididas em doses.

    Ponto crítico para o plantonista: ECG obrigatório. Antes de iniciar o verapamil e a cada aumento de dose, é imprescindível solicitar eletrocardiograma. O risco de bloqueio atrioventricular é real e pode ser silencioso.

    Corticoterapia — ponte terapêutica

    Enquanto o verapamil ainda não atingiu a dose eficaz, a prednisona entra como "ponte" para controle rápido. O esquema habitual é prednisona 60 a 100 mg/dia, com redução gradual ao longo de 2 a 3 semanas.

    A corticoterapia não deve ser mantida a longo prazo pelos efeitos adversos conhecidos, mas é extremamente útil para quebrar o ciclo de crises intensas enquanto o preventivo de primeira linha faz efeito.

    Lítio — indicação na forma crônica

    O lítio é reservado principalmente para a cefaleia em salvas crônica, quando o verapamil isolado não controla adequadamente. A dose varia conforme resposta clínica, com monitoramento sérico rigoroso — a janela terapêutica alvo e o monitoramento de função renal e tireoidiana reforçam a necessidade de seguimento neurológico estruturado.

    Medicamento Dose inicial Monitoramento Indicação principal
    Verapamil 80 mg 3x/dia (titular conforme resposta) ECG antes e durante titulação Primeira linha (episódica e crônica)
    Prednisona 60-100 mg/dia, taper em 2-3 semanas Glicemia, pressão arterial Ponte terapêutica
    Lítio Conforme resposta clínica Litemia, função renal e tireoidiana Forma crônica

    Novidades 2024–2025: anti-CGRP como perspectiva emergente

    Uma revisão publicada em 2025 no Journal of Headache and Pain sugeriu eficácia preliminar do galcanezumab — anticorpo monoclonal anti-CGRP — para cefaleia em salvas episódica. Os dados ainda são iniciais e o medicamento não foi incorporado formalmente às diretrizes como primeira linha, mas representa uma perspectiva terapêutica promissora, especialmente para pacientes refratários aos esquemas convencionais.

    Reforço: o seguimento neurológico é inegociável

    Nenhum dos esquemas profiláticos apresentados aqui deve ser conduzido sem acompanhamento especializado. A titulação do verapamil, o monitoramento do lítio e a decisão sobre terapias biológicas emergentes são responsabilidades do neurologista. O papel do plantonista é iniciar a profilaxia, garantir o encaminhamento e orientar o paciente sobre a importância da aderência ao seguimento ambulatorial.

    Cuidados não farmacológicos e encaminhamento

    O manejo da cefaleia em salvas vai muito além da prescrição de medicamentos. Após estabilizar a crise aguda, o médico tem um papel fundamental na educação do paciente e na construção de um plano de seguimento.

    Cessação do tabagismo: medida adjuvante essencial

    Mais de 80% dos pacientes com cefaleia em salvas são tabagistas. Embora a relação causal exata ainda não esteja completamente esclarecida, a cessação do tabaco é fortemente recomendada como parte integrante do tratamento. O tabaco pode atuar como gatilho para as crises e está associado a um curso mais refratário da doença.

    Álcool e outros gatilhos durante os períodos de salva

    Durante os períodos de salva, o consumo de álcool é um gatilho bem documentado e pode desencadear crises intensas em questão de minutos. Oriente o paciente a evitar completamente bem alcoólicas enquanto estiver em período ativo. Alterações no padrão de sono, exposição a odores fortes e mudanças bruscas de temperatura também devem ser discutidos.

    Educação do paciente: reduzindo a ansiedade com informação

    A cefaleia em salvas é uma condição benigna — não está associada a risco de vida ou lesões estruturais cerebrais —, mas é considerada uma das dores mais intensas que um ser humano pode experimentar. Muitos pacientes chegam ao PS convencidos de que estão tendo um AVC ou aneurisma roto. Explicar a natureza da doença, o padrão estereotipado das crises e o prognóstico ajuda a reduzir significativamente a ansiedade.

    Um ponto importante: parte dos pacientes pode apresentar deslocamento lateral da dor em crises subsequentes — a dor pode migrar para o lado oposto em surtos futuros. Isso não exclui o diagnóstico e não deve ser motivo de alarme.

    Seguimento neurológico: por que ele é indispensável

    O atendimento no PS resolve a crise aguda, mas o controle efetivo depende de seguimento ambulatorial regular com neurologista. É no consultório que o médico poderá ajustar doses profiláticas, considerar novas terapias, monitorar efeitos adversos e reavaliar o diagnóstico caso haja mudanças no padrão da dor.

    • Cessar o tabagismo — parte do tratamento
    • Evitar álcool durante os períodos de salva — gatilho bem documentado
    • Manter padrão regular de sono — alterações podem precipitar surtos
    • Buscar seguimento neurológico regular — essencial para ajuste de profilaxia
    • Entender que deslocamento lateral da dor pode ocorrer — não invalida o diagnóstico

    A combinação de tratamento farmacológico adequado, educação do paciente e seguimento especializado oferece as melhores chances de controle da doença e melhoria na qualidade de vida.

    Resumo prático: fluxograma de conduta no PS

    Quando o paciente chega ao PS com dor unilateral excruciante na região orbitária, acompanhada de lacrimejamento e agitação psicomotora, o tempo é um aliado — ou um inimigo. A cefaleia em salvas exige uma sequência lógica de decisões. Abaixo, o passo a passo completo para consulta rápida durante o plantão.

    Fluxograma de conduta: 7 etapas

    1. Suspeita clínica de cefaleia em salvas

    Dor unilateral, orbitária ou supraorbitária, descrita como "a pior dor da vida", com duração entre 15 e 180 minutos, acompanhada de sintomas autonômicos ipsilaterais. O paciente tende a ficar inquieto e agitado — não busca repouso no escuro.

    2. Aplicar critérios diagnósticos do ICHD-3

    • Pelo menos 5 crises documentadas
    • Dor unilateral intensa, orbitária, supraorbitária ou temporal
    • Duração de 15 a 180 minutos (se não tratada)
    • Frequência de 1 a 8 crises por dia durante o período ativo
    • Presença de pelo menos um sintoma autonômico ipsilateral ou sensação de inquietação/agitação

    3. Aplicar o mnemônico SNOOP para excluir causas secundárias

    Letra Sinal de alerta
    S Sintomas sistêmicos (febre, perda de peso, câncer, HIV)
    N Sinais neurológicos focais (déficit motor, papiledema)
    O Início súbito ("thunderclap")
    O Idade de início ≥ 50 anos (primeiro episódio)
    P Padrão de mudança (cefaleia progressiva ou nova)

    Se qualquer item for positivo, investigue com neuroimagem antes de seguir o fluxo de cefaleia primária.

    4. Iniciar oxigênio de alto fluxo (primeira linha)

    O₂ a 12-15 L/min por máscara não rebreathing por 15 a 20 minutos. Iniciar imediatamente ao diagnóstico. Oriente o paciente a manter a máscara bem ajustada.

    5. Reavaliar em 20 minutos

    • Se houve melhora significativa: manter observação, orientar acompanhamento neurológico e prosseguir para alta com orientações.
    • Se não houve melhora: administrar sumatriptano 6 mg SC, desde que sem contraindicações cardiovasculares.

    6. Reavaliar em 15 minutos após o sumatriptano

    • Se houve melhora: prosseguir para alta com orientações.
    • Se persiste sem melhora: considerar octreotida 100 mcg SC como terceira linha ou reavaliar o diagnóstico — retome o SNOOP e considere neuroimagem se ainda não realizada.

    7. Alta com orientações estruturadas

    • Prescrição de verapamil para início imediato como profilaxia (com ECG antes do início e acompanhamento para monitorar intervalo PR)
    • Orientação sobre gatilhos: abstinência absoluta de álcool durante o período ativo; encaminhamento para cessação do tabagismo
    • Encaminhamento neurológico para acompanhamento ambulatorial
    • Orientação sobre periodicidade circadiana e sazonal das crises

    ⚠️ ALERTA: NÃO utilize opioides no manejo da cefaleia em salvas. Opioides não têm eficácia comprovada, mascaram a resposta terapêutica, atrasam o tratamento adequado e aumentam o risco de cronificação e dependência. Se o paciente não respondeu a oxigênio e sumatriptano, o problema provavelmente é diagnóstico — não farmacológico.

    Na prática, plataformas como a medmentorIA já disponibilizam materiais de consulta rápida para cenários de cefaleia no PS, e com a IA M.A.E.S.T.R.O.® é possível treinar a tomada de decisão sequencial com base em casos clínicos simulados — o que acelera a internalização desse fluxo durante o plantão real.

    🧠 Cefaleia em Salvas no PS

    Fluxograma de conduta — 7 etapas do diagnóstico ao encaminhamento

    1

    🔍 Suspeita Clínica

    Dor periorbitária unilateral intensa, lacrimejamento, rinorreia ipsilateral, agitação psicomotora

    2

    📋 Critérios ICHD-3

    ≥5 crises, dor unilateral severa, duração 15–180 min, sintomas autonômicos cranianos ipsilaterais

    3

    🚩 Aplicar SNOOP

    Sinais de alarme: sintomas sistêmicos, neurológico focal, início súbito, onset após 50 anos, padrão progressivo

    4

    💨 O₂ Alto Fluxo — 1ª Linha

    Máscara não-rebreather a 12–15 L/min por 15–20 min. Iniciar IMEDIATAMENTE ao diagnóstico

    5

    ⏱️ Reavaliação (15–20 min)

    Houve alívio significativo? → SIM = manter O₂ e observar · NÃO = próxima etapa

    6

    💉 Sumartriptano SC — 2ª Linha

    6 mg via subcutânea se falha do O₂. Alternativa: triptano nasal. Contraindicado em doença cardiovascular

    7

    📤 Alta com Encaminhamento

    Encaminhar para neurologista. Verapamil para profilaxia. Evitar gatilhos (álcool, nitratos). Orientar retorno se recorrência

    ⚠️ Lembrete: TC de crânio se SNOOP positivo ou 1ª crise para excluir causas secundárias · O₂ alto fluxo tem eficácia de ~70% em 15 min

    Conclusão

    De todas as dores que cruzam a porta de um pronto-socorro, poucas se comparam à cefaleia em salvas. Com prevalência inferior a 1% na população geral, ela é rara — mas, para quem a experimenta, é frequentemente descrita como a pior dor da vida, superando até cólica renal e parto. O médico de emergência ocupa uma posição decisiva: é ele quem pode interromper aquela agonia em minutos, desde que reconheça o quadro e aja com precisão.

    O diagnóstico é essencialmente clínico, ancorado nos critérios do ICHD-3: dor unilateral excruciente na região orbitária ou supraorbitária, com duração de 15 a 180 minutos, acompanhada de pelo menos um sinal autonômico ipsilateral — lacrimejamento, ptose, miose, coriza ou hiperemia conjuntival. A agitação psicomotora do paciente, que não consegue ficar parado (diferentemente da enxaqueca), é uma pista valiosa. Antes de fechar o diagnóstico, porém, o mnemônico SNOOP deve ser aplicado para excluir causas secundárias que exigem investigação urgente.

    No manejo agudo, a oxigenoterapia em alto fluxo (12–15 L/min com máscara não rebreathing) é o tratamento de primeira linha. Quando o oxigênio não está disponível ou não é suficiente, o sumatriptano subcutâneo (6 mg) é a segunda linha recomendada. Um ponto crítico que todo emergenciista deve internalizar: opioides devem ser evitados. Além de ineficazes para esse tipo de dor, eles mascaram o quadro, atrasam o diagnóstico correto e expõem o paciente a risco de dependência.

    Para prevenir novas crises, o verapamil é a profilaxia de escolha, com acompanhamento eletrocardiográfico. O encaminhamento neurológico ambulatorial é indispensável — tanto para ajuste terapêutico de longo prazo quanto para avaliação de casos refratários. Os anticorpos monoclonais anti-CGRP, já aprovados para enxaqueca, vêm sendo estudados para cefaleia em salvas e representam uma perspectiva promissora.

    Em resumo: reconheça pelo ICHD-3, descarte secundárias com SNOOP, trate com oxigênio em alto fluxo, evite opioides e encaminhe para neurologia. São poucos passos, mas cada um deles pode transformar o desespero de um paciente em alívio real.

    Perguntas frequentes sobre cefaleia em salvas

    1. Cefaleia em salvas é enxaqueca?

    Não. São entidades completamente distintas. A cefaleia em salvas é uma cefaleia trigêmino-autonômica, com dor unilateral excruciante (orbitária ou supraorbitária), duração de 15 a 180 minutos e sintomas autonômicos ipsilaterais. O paciente apresenta agitação psicomotora marcante — diferentemente da enxaqueca, em que o paciente busca repouso.

    2. Qual o fluxo de oxigênio indicado para crise de cefaleia em salvas?

    Oxigênio a 100% em alto fluxo, entre 12 e 15 L/min, administrado por máscara não rebreathing, por 15 a 20 minutos. Essa é a primeira linha para tratamento agudo, com evidência de eficácia na interrupção da crise quando iniciado precocemente.

    3. Posso usar opioides para cefaleia em salvas?

    Não é recomendado. Opioides são ineficazes para dor de natureza neurovascular e podem cronificar o quadro, além do risco de dependência. O tratamento agudo de escolha inclui oxigênio em alto fluxo e sumatriptano subcutâneo.

    4. Quando solicitar tomografia ou ressonância magnética?

    A neuroimagem é indicada para excluir causas secundárias, especialmente na primeira crise, na presença de sinais de alarme (SNOOP+), ou quando o quadro é atípico. A ressonância magnética com protocolo de seio cavernoso e hipófise é preferencial para investigação detalhada.

    5. Qual a diferença entre a forma episódica e a crônica?

    Na forma episódica, as crises ocorrem em períodos que duram de 7 dias a 1 ano, com remissão de pelo menos 3 meses. Na forma crônica, as crises persistem por mais de 1 ano sem remissão ou com remissão inferior a 3 meses.

    6. Quais são as contraindicações do sumatriptano?

    O sumatriptano é contraindicado em pacientes com doença arterial coronariana, história de AVC ou AIT, hipertensão arterial não controlada, doença vascular periférica, migrânea hemiplegica ou basilar, e uso concomitante de ergotamina ou IMAO. Por ser um agonista serotoninérgico com efeito vasoconstritor, seu uso em pacientes com risco cardiovascular pode desencadear eventos isquêmicos graves.

    Dica para provas: Memorize o mnemônico SNOOP para sinais de alarme de cefaleia secundária — ele aparece com frequência em questões de residência e é essencial na tomada de decisão no plantão.

    Dra. Lara Santos Rocha★ Caso nº 1 · role-model M.A.E.S.T.R.O.®
    Sobre a autora

    Dra. Lara Santos Rocha

    Residente de Clínica Médica — HC-USP-RP (FMRP-USP) · CRM-SP 285250

    Médica residente de Clínica Médica no HC-USP-RP. Vive a preparação para residência por dentro — e revisa o conteúdo do blog com esse olhar prático.

    1º lugar · FELUMAAprovada · Einstein (HIAE)
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