A Miopatia Necrotizante Autoimune (MNAI) é um subgrupo grave de miopatias inflamatórias em que o sistema imunológico destrói diretamente as fibras musculares, causando necrose com mínimo ou nenhum infiltrado inflamatório visível na biópsia — o chamado padrão necrose pauci-imune. A doença se manifesta por fraqueza muscular proximal simétrica de evolução subaguda e níveis de creatinoquinase (CK) expressivamente elevados, frequentemente 10 a 50 vezes acima do limite superior da normalidade.
O que define o diagnóstico, o prognóstico e a escolha terapêutica é o perfil de autoanticorpos: anti-SRP (partícula de reconhecimento de sinal), anti-HMGCR (HMG-CoA redutase, associado ao uso de estatinas) ou ausência de ambos (forma soronegativa). Reconhecer esses subtipos não é exercício acadêmico — é o que determina a urgência da intervenção, o esquema imunossupressor e o rastreio de neoplasias ocultas. Este guia reúne tudo o que você precisa dominar para a residência e para a prática clínica.
O que É a Miopatia Necrotizante Autoimune (MNAI)?
A MNAI se diferencia das miosites clássicas por um detalhe histológico que muda tudo: enquanto na polimiosite o infiltrado linfocitário exuberante é o achado central e tende a responder bem à imunossupressão inicial, na MNAI a destruição muscular ocorre de forma "silenciosa" do ponto de vista inflamatório. O que se vê na lâmina é necrose de fibras com pouquíssima inflamação ao redor — daí o conceito de necrose pauci-imune.
Essa distinção não é apenas morfológica. Ela explica por que a doença é mais refratária, por que exige abordagem mais agressiva e por que o diagnóstico tardio resulta em atrofia irreversível. Reconhecer a MNAI como entidade própria é, portanto, decisivo para o prognóstico do paciente.
Os três subtipos em resumo
- Anti-SRP: forma mais grave, progressão rápida, maior resistência à corticoterapia isolada e risco aumentado de envolvimento cardíaco.
- Anti-HMGCR: gatilho ambiental clássico são as estatinas; em geral, melhor resposta ao tratamento quando comparado ao anti-SRP.
- Soronegativa: diagnóstico baseado na biópsia muscular e no quadro clínico, sendo a biópsia frequentemente indispensável nesses casos; exige rastreio oncológico sistemático.
Clinicamente, a doença se manifesta por fraqueza muscular proximal simétrica (membros superiores e inferiores) com evolução subaguda — o paciente nota a perda de força ao longo de semanas a poucos meses. Mialgia está presente em grande parte dos pacientes na fase ativa, e disfagia pode ocorrer por acometimento da musculatura orofaríngea. Diferentemente da dermatomiosite, manifestações cutâneas e articulares são raras na MNAI, o que já orienta o raciocínio diagnóstico diferencial desde a anamnese.
Fisiopatologia e Classificação por Anticorpos
O mecanismo de dano na MNAI varia conforme o subtipo sorológico, e entender essa diferença é o que permite antecipar complicações e individualizar o tratamento.
Anti-SRP: o subtipo de maior gravidade
Os anticorpos anti-SRP (signal recognition particle) estão associados à forma mais agressiva da doença. Os autoanticorpos anti-SRP parecem participar ativamente da patogênese, incluindo a ativação do sistema complemento com deposição do complexo de ataque à membrana (MAC) nos capilares musculares e fibras necróticas — mecanismo que contribui para a lise osmótica e morte da fibra. Outros mecanismos também são propostos. Há interesse experimental no bloqueio do complemento como abordagem adjuvante, mas não se trata de terapia estabelecida; o manejo consolidado envolve glicocorticoides, imunossupressores, IVIG e rituximabe.
Pacientes com anti-SRP tendem a apresentar:
- Progressão rápida da fraqueza muscular proximal
- Níveis de CK marcadamente elevados — frequentemente acima de 10 vezes o valor de referência
- Maior resistência ao tratamento inicial com corticosteroides em monoterapia
- Risco aumentado de envolvimento cardíaco, que exige monitoramento ativo
Disfagia por comprometimento da musculatura orofaríngea e fraqueza da musculatura cervical (podendo evoluir para head drop) são achados que devem ser ativamente pesquisados nesse subtipo, dado seu impacto direto na qualidade de vida e no estado nutricional do paciente.
Anti-HMGCR: a pista das estatinas
Os anticorpos anti-HMGCR (3-hydroxy-3-methylglutaryl-coenzyme A reductase) caracterizam um subtipo com perfil próprio e, em geral, melhor resposta ao tratamento quando comparado ao anti-SRP.
O gatilho ambiental clássico é o uso de estatinas. Esses fármacos inibem a enzima HMG-CoA redutase, provocando aumento compensatório da expressão de HMGCR nas fibras musculares. Em indivíduos geneticamente suscetíveis — especialmente portadores do alelo HLA-DRB1*11:01 —, essa superexpressão leva o sistema imunológico a reconhecer a própria proteína como alvo e produzir anticorpos contra ela. Uma vez estabelecida, a autoimunidade se torna autônoma: a simples retirada da estatina não resolve o quadro na maioria dos casos, e o tratamento imunossupressor é indispensável.
Dica clínica: se o paciente usava estatina e a CK permanece elevada e a fraqueza persiste ou progride após a suspensão do fármaco, especialmente por várias semanas, o diagnóstico de MNAI anti-HMGCR deve ser seriamente considerado. Solicitar a pesquisa do anticorpo é o passo seguinte.
Subtipo soronegativo
Parcela dos pacientes com MNAI não apresenta anti-SRP nem anti-HMGCR identificáveis. Nesses casos, o diagnóstico é baseado exclusivamente na biópsia muscular e no quadro clínico. A associação com neoplasias ocultas é particularmente relevante nesse grupo, tornando o rastreio oncológico obrigatório — especialmente em pacientes acima de 40 anos.
🧬 Miopatia Necrotizante Autoimune
Comparação por Perfil de Anticorpos
Anti-SRP
Signal Recognition Particle
Anti-HMGCR
HMG-CoA Redutase
Soronegativa
Sem anticorpos identificados
⚠️ A identificação do perfil de anticorpos é essencial para guiar a investigação etiológica e a escolha terapêutica
Tabela comparativa: subtipos da MNAI
| Característica | Anti-SRP | Anti-HMGCR | Soronegativa |
|---|---|---|---|
| Gravidade clínica | Alta | Moderada | Variável |
| Gatilho típico | Autoimune (desconhecido) | Estatinas | Indeterminado / neoplasia |
| Mecanismo de dano | Ativação do complemento (MAC) | Autoanticorpos anti-HMGCR | Indeterminado |
| Envolvimento cardíaco | Risco aumentado | Menos frequente | A definir caso a caso |
| Resposta terapêutica | Pior — terapia combinada precoce | Melhor — boa resposta à imunossupressão | Depende da precisão diagnóstica |
| Rastreio oncológico | Risk-based em adultos | Risk-based em adultos (maior risco em idosos) | Sistemático — associação com neoplasia mais forte |
Manifestações Clínicas: Muito Além da Fraqueza
O quadro clínico da MNAI é suficientemente característico para levantar a suspeita diagnóstica antes mesmo dos exames sorológicos. Reconhecer cada elemento do padrão clínico é o que separa o diagnóstico precoce — que preserva músculo — do tardio — que deixa sequelas.
Fraqueza proximal simétrica: o achado central
A fraqueza acomete preferencialmente a musculatura proximal de membros superiores e inferiores de forma simétrica. O paciente relata dificuldade para levantar os braços acima da cabeça, subir escadas ou levantar-se de uma cadeira sem apoio. A evolução é subaguda — ao contrário de condições agudas como a rabdomiólise por trauma, aqui a piora se instala ao longo de semanas a poucos meses.
Mialgia, disfagia e fraqueza cervical
A mialgia ocorre em grande parte dos pacientes durante a fase ativa da doença, sendo frequentemente o sintoma que motiva a primeira consulta. A disfagia, por comprometimento da musculatura orofaríngea, é um achado que ocorre em parcela significativa dos casos e impacta diretamente o estado nutricional e o risco de aspiração pulmonar — dois desfechos que precisam ser monitorados ativamente.
A fraqueza da musculatura cervical merece atenção especial. Quando os flexores do pescoço são predominantemente acometidos, o paciente pode desenvolver o head drop — incapacidade de manter a cabeça ereta, que pende para frente. Esse sinal pode ser a queixa inicial e, por sua raridade, frequentemente retarda o diagnóstico correto.
O que está ausente: pistas para o diferencial
Manifestações cutâneas são raras na MNAI (menos de 10% dos casos). Essa ausência é, paradoxalmente, uma informação diagnóstica valiosa: quando você tem fraqueza proximal simétrica sem lesões de pele, a dermatomiosite fica menos provável e a MNAI entra com mais força no diferencial. Manifestações articulares também são incomuns, o que afasta doenças reumáticas sistêmicas sobrepostas na maioria dos casos.
Pontos-chave do quadro clínico
- Fraqueza proximal simétrica de membros superiores e inferiores, evolução subaguda
- Mialgia frequente na fase ativa
- Disfagia em parcela dos pacientes, por acometimento orofaríngeo
- Fraqueza cervical com possível head drop em casos mais graves
- Ausência de manifestações cutâneas na grande maioria dos casos (<10%)
- Manifestações articulares raras
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O diagnóstico da MNAI segue uma sequência lógica que começa nos exames laboratoriais e se confirma na biópsia muscular. Conhecer cada etapa — e o que esperar de cada exame — é indispensável tanto para a prática clínica quanto para questões de prova.
Creatinoquinase (CK): o primeiro sinal de alerta
Na MNAI, a CK está massivamente elevada, frequentemente entre 10 e 50 vezes acima do limite superior da normalidade (valor de referência habitual: até ~200 U/L). É comum encontrar valores entre 2.000 e 10.000 U/L na apresentação inicial. Esse grau de elevação, combinado com fraqueza muscular proximal simétrica de início subagudo e sem causa evidente (trauma, exercício extenuante), deve imediatamente acionar a investigação de miopatia inflamatória.
Regra prática: CK acima de 1.000 U/L com padrão miopático na eletroneuromiografia e sem exposição recente a trauma = investigar miopatia inflamatória. CK normal praticamente exclui MNAI ativa.
Eletroneuromiografia: confirmando o padrão miopático
A eletroneuromiografia revela padrão claramente miopático — potenciais de unidade motora de curta duração e baixa amplitude —, diferenciando a MNAI de neuropatias. Ao contrário do que ocorre nas neuropatias de fibras pequenas (nas quais a ENMG de rotina pode ser normal), aqui as alterações aparecem precocemente e são consistentes com o quadro clínico.
Ressonância Magnética Muscular: guiando a biópsia
A RM muscular desempenha papel complementar relevante, especialmente para orientar o local da biópsia. O achado mais característico é o edema muscular em sequências STIR (Short Tau Inversion Recovery), que reflete inflamação ativa no tecido muscular. Esse edema tende a acometer a musculatura proximal dos membros inferiores de forma simétrica, correlacionando-se com a distribuição clínica da fraqueza.
A RM também ajuda a:
- Identificar áreas de necrose ativa versus atrofia crônica
- Diferenciar inflamação ativa de dano estrutural prévio
- Orientar o músculo-alvo para biópsia (preferir áreas com edema ativo e musculatura ainda preservada, evitando áreas já substituídas por gordura)
Biópsia muscular: o exame-chave
A biópsia muscular fornece o achado histopatológico mais característico da MNAI e é frequentemente indispensável, sobretudo nos casos soronegativos ou com apresentação atípica. Importante lembrar que o padrão necrotizante também pode ocorrer em distrofias musculares, miopatias tóxicas e outras miopatias inflamatórias, devendo essas causas ser excluídas. O achado clássico — e altamente sugestivo — é a presença de fibras musculares necróticas com aspecto fragmentado e basófilo, dispersas entre fibras viáveis, com pouca ou nenhuma infiltração inflamatória significativa. Esse padrão é justamente o que dá nome à doença e o que a diferencia de outras miopatias inflamatórias.
Autoanticorpos: refinando o subtipo
Após a confirmação histopatológica, a pesquisa de autoanticorpos define o subtipo e orienta a conduta:
- Anti-SRP: formas mais graves, maior resistência inicial à corticoterapia
- Anti-HMGCR: frequentemente associado a exposição prévia a estatinas, sobretudo em adultos mais velhos, mas também ocorre em pacientes sem histórico de uso
- Soronegativo: sem anticorpos identificáveis; exige rastreio oncológico sistemático
| Exame | Achado na MNAI | Papel diagnóstico |
|---|---|---|
| CK sérica | Elevação marcada (10–50× normal, escala U/L) | Alta sensibilidade, baixa especificidade |
| Eletroneuromiografia | Padrão miopático | Diferencia de neuropatia; altera-se precocemente |
| RM muscular (STIR) | Edema muscular proximal simétrico | Orienta biópsia; avalia atividade da doença |
| Biópsia muscular | Necrose de fibras com mínimo infiltrado inflamatório | Achado histológico central; indispensável em casos soronegativos ou atípicos |
| Autoanticorpos (SRP/HMGCR) | Positivo em maioria dos casos | Define subtipo e orienta terapêutica |
🧬 Matriz de Diagnóstico: MNAI
Achados-chave convergindo para o diagnóstico
CK Elevada
Creatinoquinase
↑↑↑ marcadamente elevada
Fraqueza Proximal
Dificuldade para levantar
braços / subir escadas / levantar-se
RM Muscular (STIR)
Edema muscular proximal
simétrico em T2/STIR
Biópsia Muscular
Necrose de fibras com
mínimo infiltrado inflamatório
MNAI
Miopatia Necrotizante
Autoimune
💡 Nota clínica: A presença dos quatro critérios, com exclusão de causas genéticas e outras miopatias inflamatórias, aumenta fortemente a probabilidade de MNAI. Investigar anticorpos anti-SRP e anti-HMGCR para definir o subtipo.
Gatilhos Ambientais: Estatinas, Genética e o Diferencial com Toxicidade
Você sabia que um dos medicamentos mais prescritos no mundo pode, em pessoas geneticamente predispostas, disparar uma reação autoimune devastadora nos músculos? Essa é a lógica por trás da MNAI anti-HMGCR — e entender essa relação é fundamental para não confundir toxicidade farmacológica reversível com doença imunomediada que exige tratamento específico.
Miopatia tóxica por estatina não é a mesma coisa
Na miopatia induzida por estatina "pura", a suspensão do fármaco leva à recuperação em semanas a poucos meses: a CK normaliza e a fraqueza melhora sem necessidade de imunossupressão. Na MNAI anti-HMGCR, o quadro não se resolve com a simples retirada da estatina. O sistema imunológico já produz anticorpos de forma autônoma, e a agressão muscular continua ativa. Esses pacientes necessitam de imunossupressão — geralmente com glicocorticoides combinados a agentes poupadores como metotrexato ou azatioprina e, em casos refratários, imunoglobulina intravenosa ou rituximabe.
O peso da genética: HLA-DRB1*11:01
A estatina sozinha não explica tudo — se assim fosse, milhões de usuários desenvolveriam a doença. O que determina quem adoece é, em grande parte, a bagagem genética individual. Estudos de associação genômica identificaram que o alelo HLA-DRB1*11:01 é o principal fator de predisposição para a MNAI anti-HMGCR. Esse alelo codifica uma molécula do MHC classe II que apresenta peptídeos derivados da HMGCR superexpressa de forma eficiente para linfócitos T autorreativos — criando as condições para a quebra de tolerância imunológica.
Quadro comparativo: toxicidade por estatina × MNAI anti-HMGCR
| Característica | Miotoxicidade por estatina | MNAI anti-HMGCR |
|---|---|---|
| Mecanismo | Efeito farmacológico direto | Autoimunidade mediada por anticorpos |
| Resposta à suspensão da estatina | Melhora em semanas | Não resolve isoladamente |
| CK após suspensão | Tende a normalizar | Permanece elevada |
| Tratamento necessário | Apenas suspensão do fármaco | Imunossupressão obrigatória |
| Anti-HMGCR | Negativo | Positivo |
| Predisposição genética | Dados limitados | HLA-DRB1*11:01 |
Reconhecer essa diferença evita o erro mais comum e potencialmente prejudicial: suspender a estatina, aguardar tempo demais e perder a janela de tratamento imunossupressor. Quanto mais precocemente a MNAI anti-HMGCR for identificada, menor o risco de necrose muscular extensa e atrofia irreversível.
Abordagem Terapêutica Atualizada
A MNAI exige uma postura terapêutica decisiva desde o primeiro contato com o paciente. A mensagem central dos consensos internacionais mais recentes é clara: esperar é perder músculo — e o que se perde por necrose e substituição adiposa muitas vezes não volta. A seguir, a abordagem organizada por etapas.
Primeira linha: corticoterapia em dose plena
O pilar da indução de remissão é a prednisona oral na dose de 1 mg/kg/dia (habitualmente limitada a 60–80 mg/dia), mantida em dose plena por quatro a seis semanas antes de se iniciar a redução gradual. Antes de começar, é essencial rastrear comorbidades que podem ser agravadas: diabetes, osteopenia e infecções latentes (tuberculose, hepatite B). A redução da dose deve ser lenta — interrupções abruptas estão entre as principais causas de recaída.
Agentes poupadores de corticoide
A corticoterapia isolada raramente é suficiente na MNAI. A introdução precoce de um segundo agente imunossupressor é a regra, não a exceção. As opções disponíveis:
- Azatioprina (2–3 mg/kg/dia): boa opção para pacientes estáveis; titulação apoiada nos níveis de atividade da tiopurina metiltransferase (TPMT).
- Metotrexato (15–25 mg/semana, oral ou subcutâneo): amplamente utilizado, sempre com suplementação de ácido fólico.
- Micofenolato mofetil (2–3 g/dia em duas tomadas): indicado em casos refratários ou com intolerância às opções anteriores.
A escolha entre esses agentes depende do perfil do paciente, das comorbidades e do subtipo sorológico.
Imunoglobulina intravenosa (IVIG) e rituximabe
A IVIG ganhou destaque crescente no manejo da MNAI, especialmente no subtipo anti-HMGCR. Pode ser introduzida como agente de primeira linha em casos com quadro agudo e CK muito elevada, na dose de 2 g/kg ajustada ao peso, dividida em dois a cinco dias consecutivos. A resposta costuma ser rápida, e a IVIG também encontra espaço como terapia de ponte enquanto o segundo agente imunossupressor não atinge efeito pleno.
Nos pacientes com anti-SRP — subtipo mais agressivo e com maior resistência à corticoterapia —, o rituximabe tem sido introduzido de forma precoce, antes que o fenótipo se consolide em atrofia irreversível. O esquema mais utilizado é 375 mg/m² semanal por quatro doses ou 1 g em duas aplicações com intervalo de 14 dias.
Subtipos soronegativos: rastreio oncológico obrigatório
Nos casos soronegativos, além do tratamento imunossupressor, o rastreio de neoplasias ocultas é etapa obrigatória. A abordagem inicial inclui exame clínico completo e rastreios populacionais conforme idade e sexo. Em pacientes com maior risco (soronegativo, disfagia, atividade persistente), considera-se tomografia de pescoço/tórax/abdome/pelve, rastreio ginecológico apropriado, PSA quando indicado, e colonoscopia ou pesquisa de sangue oculto nas fezes conforme faixa etária. PET-CT ou endoscopia podem ser considerados em cenários selecionados. Se nenhum tumor for identificado, a reavaliação periódica do rastreio deve ser discutida — especialmente nos primeiros anos de acompanhamento.
Medidas de suporte
Nenhum protocolo imunossupressor está completo sem:
- Suplementação de vitamina D e cálcio: profilaxia de osteoporose corticoinduzida desde o início do tratamento
- Profilaxia contra Pneumocystis jirovecii (sulfametoxazol-trimetoprim em dias alternados): para pacientes em terapia combinada com doses elevadas de prednisona
- Fisioterapia motora precoce: adaptada à tolerância do paciente, para minimizar atrofia por desuso e preservar amplitude articular
- Acompanhamento cardiológico nos portadores de anti-SRP, dado o risco de miocardite associada
Resumo terapêutico
| Etapa | Conduta | Observação |
|---|---|---|
| Indução | Prednisona 1 mg/kg/dia | Dose plena por 4–6 semanas |
| 2ª linha clássica | Azatioprina, Metotrexato ou Micofenolato | Escolher conforme perfil e comorbidades |
| Anti-HMGCR agudo | IVIG como 1ª linha | 2 g/kg ajustado ao peso |
| Anti-SRP | Rituximabe precocemente | Antes da consolidação de atrofia |
| Soronegativo | Rastreio oncológico | Repetir nos primeiros 2 anos |
| Suporte universal | Vit D + cálcio, profilaxia PCP, fisioterapia | Desde o diagnóstico |
Conclusão: Pontos-Chave para a Prática e a Prova
A MNAI é um diagnóstico que não pode esperar. Quando você se deparar com fraqueza muscular proximal simétrica, CK expressivamente elevada e histórico de uso de estatinas, pense em MNAI — e aja rápido. O diagnóstico precoce é o fator mais determinante para evitar sequelas motoras irreversíveis, já que a necrose de fibras musculares progride silenciosamente na ausência de tratamento adequado.
Três condutas devem ser automáticas diante de um caso confirmado: suspender definitivamente a estatina (no subtipo anti-HMGCR, a manutenção do fármaco agrava o quadro), iniciar imunossupressão precocemente e rastrear neoplasia oculta nos casos soronegativos. Disfagia e fraqueza cervical devem ser ativamente pesquisadas na avaliação clínica, pois impactam diretamente as decisões de suporte nutricional e de reabilitação.
Prognóstico de longo prazo
Com tratamento imunossupressor instituído nas primeiras semanas, a maioria dos pacientes alcança recuperação funcional significativa. O prognóstico depende diretamente da precocidade da intervenção: diagnósticos tardios estão associados a atrofia muscular residual e dependência de suporte motor. O acompanhamento ambulatorial prolongado é essencial, com monitoramento periódico de CK e força muscular.
Flags para pegadinhas em provas
Atenção aos pontos clássicos que as bancas exploram:
- CK normal praticamente exclui MNAI ativa — se a questão descreve fraqueza proximal com CK normal, o diagnóstico é outro.
- Ausência de manifestações cutâneas diferencia a MNAI da dermatomiosite — não confunda os dois.
- Infiltrado inflamatório mínimo ou ausente na biópsia é o achado histológico central da MNAI, ao contrário da polimiosite.
- Suspender a estatina não resolve a MNAI anti-HMGCR — imunossupressão é obrigatória.
- Miosite por corpos de inclusão tem fraqueza distal (flexores dos dedos), evolução crônica e CK levemente aumentada — perfil oposto ao da MNAI.
Dominar o raciocínio diagnóstico da MNAI — da suspeita inicial ao rastreio oncológico — é exatamente o tipo de competência que diferencia um residente preparado. A medmentorIA oferece flashcards e casos clínicos estruturados para fixar esses diferenciais com a profundidade que as provas exigem. Continue estudando com consistência: cada caso revisado hoje é um paciente melhor amanhã.
Perguntas Frequentes
O uso de estatina deve ser suspenso permanentemente na MNAI anti-HMGCR?
Sim. Nos casos com anti-HMGCR confirmado, a estatina deve ser evitada permanentemente. Para o controle da dislipidemia, outras classes de medicamentos (como ezetimiba ou inibidores de PCSK9) devem ser consideradas em conjunto com o especialista responsável.
Qual o valor típico de CK na fase ativa da MNAI?
Os valores são expressivamente elevados — geralmente entre 10 e 50 vezes o limite superior da normalidade (que gira em torno de ~200 U/L). É comum encontrar CK acima de 2.000 U/L, podendo ultrapassar 10.000 U/L nos casos mais graves. Esses valores estão em escala de U/L (unidades por litro).
MNAI pode ocorrer em crianças?
Sim, embora seja rara na faixa etária pediátrica. Os casos descritos na literatura são frequentemente associados ao anticorpo anti-SRP e costumam apresentar curso clínico mais agressivo do que o observado em adultos.
Qual o anticorpo associado a pior resposta terapêutica?
O anti-SRP está associado às formas mais graves da doença: fraqueza mais intensa, maior risco de disfagia, envolvimento cardíaco e resistência aos corticoides em monoterapia. Nesses pacientes, a introdução precoce de rituximabe ou IVIG é frequentemente necessária.
Como diferenciar MNAI de miosite por corpos de inclusão?
Os perfis são praticamente opostos. A MNAI apresenta fraqueza proximal e simétrica, evolução subaguda (semanas a meses) e CK muito elevada. A miosite por corpos de inclusão tem fraqueza distal (especialmente flexores dos dedos e quadríceps), evolução crônica e insidiosa (anos) e CK apenas levemente aumentada ou normal. Na biópsia, a miosite por corpos de inclusão mostra inclusões ribonucleoproteicas características, ausentes na MNAI.



