A endocardite infecciosa (EI) é uma infecção do endocárdio — principalmente das válvulas cardíacas — caracterizada pela formação de vegetações compostas por plaquetas, fibrina e microrganismos. O diagnóstico definitivo se baseia nos Critérios de Duke modificados (atualizados em 2023 pelo ISCVID), que combinam achados clínicos, microbiológicos (hemoculturas) e de imagem (ecocardiograma, PET/TC ou TC cardíaca). As manifestações clínicas incluem febre (80–90% dos casos), sopro cardíaco novo, insuficiência cardíaca e sinais periféricos como nódulos de Osler e lesões de Janeway.
Dominar a EI é essencial para quem presta provas de residência em clínica médica, infectologia e cardiologia — e, mais importante, para quem atende no plantão. Neste guia, você vai entender a fisiopatologia, reconhecer as manifestações clínicas, aplicar os critérios de Duke (versão 2000 e atualização 2023) e conduzir a abordagem diagnóstica passo a passo, da suspeita à conduta.
A sequência fisiopatológica: do endotélio lesado à infecção
A EI segue uma cascata bem definida, e entendê-la muda completamente a forma como você identifica pacientes de risco no plantão. O processo tem quatro etapas que se encadeiam de forma lógica:
1. Lesão endotelial. O endotélio valvular — que em condições normais é liso e resistente à adesão de microrganismos — sofre dano por diversos mecanismos: jatos de alta velocidade em valvas com regurgitação, cardiopatias congênitas com shunts, próteses valvares ou cateteres indwelling. O dano expõe a matriz subendotelial, rica em colágeno.
2. Deposição de plaquetas e fibrina (vegetação estéril). Uma vez exposto o colágeno, o corpo responde como faria com qualquer lesão vascular: há adesão plaquetária e deposição de fibrina, formando um pequeno trombo estéril sobre a superfície valvar. Essa massa amorfa de plaquetas e fibrina é o "solo fértil" para o que vem a seguir.
3. Bacteremia transitória. Microrganismos entram na corrente sanguínea a partir de diversas portas — abscessos dentários, lesões cutâneas, cateteres vasculares, manipulação de mucosas ou procedimentos invasivos. Na maioria das vezes, o sistema imune elimina essas bactérias rapidamente. Mas, na presença da vegetação estéril...
4. Colonização e formação da vegetação infectada. Os microrganismos circulantes aderem ao complexo plaqueta-fibrina, colonizam a superfície e ativam a via extrínseca da coagulação, perpetuando e ampliando a vegetação. A partir desse ponto, o ciclo se autoalimenta: mais plaquetas e fibrina se depositam, mais bactérias se abrigam no interior da vegetação (protegidas de anticorpos e antibióticos), e a massa cresce.
O papel do gradiente de pressão: por que as válvulas são acometidas de forma assimétrica
Um dos pontos que mais aparecem em provas — e que faz muita diferença na prática — é entender onde na valva a vegetação se forma. A resposta está na hemodinâmica local.
Quando existe um orifício estreito ou uma regurgitação, o sangue é ejetado em alta velocidade de uma câmara de alta pressão para outra de baixa pressão. O jato de alta velocidade lesa o endotélio do lado de baixa pressão — é ali que o endotélio sofre o maior estresse mecânico por impacto. Vegetações se formam exatamente nesse ponto de lesão:
- Valva mitral: as vegetações se formam predominantemente no lado atrial, porque o jato regurgitante do ventrículo esquerdo para o átrio esquerdo lesa o endotélio atrial da mitral.
- Valva aórtica: as vegetações se localizam no lado ventricular, já que o jato de regurgitação aórtica atinge o endocárdio do ventrículo esquerdo diante da folheta valvar.
Esse princípio do gradiente de pressão também explica por que lesões como defeito de septo ventricular e persistência do canal arterial predispõem a EI: o jato de alta pressão através do defeito lesa o endotélio adjacente.
Por que a valva mitral é a mais acometida
Embora a valva aórtica tenha ganhado destaque nas últimas décadas (especialmente pela associação com Staphylococcus aureus em idosos e usuários de drogas injetáveis), a mitral continua sendo a válvula mais frequentemente acometida no cenário geral da EI nativa. Isso se deve a fatores hemodinâmicos: o ventrículo esquerdo gera a maior pressão do sistema circulatório, e a mitral é a grande "porta de saída" entre o átrio e o ventrículo esquerdos. Qualquer grau de insuficiência mitral — mesmo leve — cria um jato regurgitante de extrema alta velocidade que impacta diretamente o endotélio atrial da valva, favorecendo a lesão endotelial inicial. Somam-se a isso a alta prevalência de prolapso mitral na população geral (um dos principais fatores de risco em países desenvolvidos) e a histórica contribuição do reumatismo em países como o Brasil, que deixou um contingente significativo de pacientes com doença mitral crônica.
Essa base fisiopatológica é fundamental porque será o alicerce para entender os critérios diagnósticos, as complicações embólicas e as indicações cirúrgicas que veremos nas próximas seções.
Classificação: Aguda, Subaguda, Protética e Nosocomial
A forma como a endocardite infecciosa se apresenta e evolui depende de três variáveis principais: o tempo de evolução dos sintomas, o tipo de válvula acometida e o local onde a infecção foi adquirida. Compreender essa classificação não é apenas um exercício acadêmico — ela direciona diretamente a sua suspeita etiológica e, por consequência, a escolha da antibioticoterapia empírica enquanto aguarda-se a cultura de sangue.
Um ponto que gera confusão frequente: a classificação em aguda ou subaguda é baseada no tempo de evolução dos sintomas, e não no tempo de tratamento instituído.
Classificação pelo tempo de evolução
Endocardite Aguda (< 6 semanas)
- Agente mais provável: Staphylococcus aureus — microrganismo de alta virulência, capaz de colonizar válvulas previamente íntegras.
- Quadro clínico predominante: Estado toxêmico grave e evolução rápida. O paciente apresenta febre alta, calafrios, sepse e pode evoluir para insuficiência cardíaca franca em dias.
- Prognóstico: Geralmente reservado, em parte pela virulência do S. aureus e pela rapidez do dano valvar.
Endocardite Subaguda (≥ 6 semanas)
- Agente mais provável: Streptococcus viridans — microrganismo de baixa virulência que exige superfície endocárdica previamente lesada para se fixar.
- Quadro clínico predominante: Evolução insidiosa, com semanas a meses de história de febre baixa intermitente, sudorese noturna, mialgia e perda de peso.
- Prognóstico: Geralmente melhor que a forma aguda quando tratada adequadamente, porém o diagnóstico tardio permanece como fator de risco para complicações.
Classificação pelo tipo de válvula acometida
Endocardite em válvula nativa: a valva mitral é a mais frequentemente acometida globalmente, seguida pela valva aórtica. O dano valvar resulta predominantemente em insuficiência (regurgitação), não em estenose.
Endocardite em valva protética: dividida em precoce (< 1 ano após a cirurgia) e tardia (≥ 1 ano após a cirurgia). A precoce está frequentemente associada a contaminação intraoperatória, com estafilococos coagulase-negativos (S. epidermidis) como agentes mais comuns. A tardia tem perfil etiológico mais semelhante à EI em valva nativa. Implantes por via transcateter (TAVI) possuem risco de infecção similar ao das próteses cirúrgicas tradicionais.
Endocardite associada a dispositivos cardíacos: marcapassos e CDI estão presentes em parcela significativa dos casos de EI confirmadas e foram formalmente incluídos como fator de risco nas atualizações mais recentes dos critérios diagnósticos. O agente predominante é S. aureus e estafilococos coagulase-negativos.
Classificação pelo local de aquisição
Endocardite nosocomial: manifesta-se após 48 horas da internação ou está relacionada a procedimentos hospitalares. Agentes mais comuns: S. aureus (incluindo MRSA), enterococos e Gram-negativos. Prognóstico tipicamente pior.
Endocardite comunitária: adquirida fora do ambiente hospitalar. Em usuários de drogas intravenosas, há predomínio de S. aureus e acometimento preferencial da valva tricúspide.
Correlação prática: tipo × agente × prognóstico
| Tipo | Agente mais provável | Válvula típica | Prognóstico |
|---|---|---|---|
| Aguda | S. aureus | Previamente íntegra | Pior — sepse, IC rápida |
| Subaguda | S. viridans | Já danificada | Melhor — evolução lenta |
| Protética precoce | Estafilococos coagulase-negativos | Prótese < 1 ano | Reservado — alto risco cirúrgico |
| Protética tardia | S. aureus, estreptococos | Prótese ≥ 1 ano | Intermediário |
| Nosocomial | MRSA, Gram-negativos | Nativa ou prótese | Pior — comorbidades associadas |
Essa correlação é o que transforma a classificação em ferramenta clínica real. Quando você recebe um paciente com febre, sopro novo e história de prótese aórtica implantada há 3 meses, a suspeita de endocardite protética precoce por estafilococo coagulase-negativo deve ser imediata — e a antibioticoterapia empírica deve cobrir esse espectro antes mesmo do resultado das hemoculturas.
Endocardite Infecciosa
Comparação entre as formas Aguda e Subaguda
| Critério | Aguda | Subaguda |
|---|---|---|
| Agente Predominante | S. aureus | S. viridans |
| Tempo de Evolução | Dias a semanas | Semanas a meses |
| Tipo de Válvula | Previamente sadia | Previamente doente |
| Quadro Clínico | Febre alta, sepse, ICC aguda | Febre baixa, sudorese, fadiga |
| Prognóstico | ⚠️ Reservado — alta mortalidade | ✓ Melhor — resposta a ATB |
💡 Dica: A EI aguda por S. aureus pode acometer válvulas previamente sadias e evoluir com destruição valvar rápida, exigindo intervenção cirúrgica precoce.
Manifestações Clínicas Cardíacas e Sistêmicas
A endocardite infecciosa é uma doença de apresentação clínica ampla. A febre está presente em 80 a 90% dos casos, sendo o sintoma mais comum. A combinação de febre e sopro cardíaco ocorre em 85–90% dos pacientes com EI. A hematúria ocorre em cerca de 25% dos pacientes, e a esplenomegalia em aproximadamente 11%.
Achados clínicos por frequência
- Febre (80–90%): pode ser baixa e insidiosa na forma subaguda ou alta e acompanhada de estado toxêmico na forma aguda.
- Sopro cardíaco (80–90%): a identificação de um sopro novo ou a alteração de um sopro previamente conhecido deve sempre levantar a hipótese de EI.
- Hematúria (25%): pode indicar glomerulonefrite imunocomplexa ou infarto renal por embolia séptica.
- Esplenomegalia (11%): reflete resposta imunológica prolongada e, em alguns casos, infartos esplênicos.
- Manifestações cutâneas: petéquias, nódulos de Osler, lesões de Janeway e manchas de Roth — menos frequentes, mas altamente sugestivas quando presentes.
- Insuficiência cardíaca: complicação mais frequente da EI, especialmente quando há acometimento da valva aórtica.
Embolias sistêmicas: quando a vegetação migra
As vegetações são fragmentos instáveis que, ao se desprendem, podem embolizar para múltiplos órgãos: cérebro (AVC isquêmico ou abscesso), baço (infartos esplênicos), rins (infarto renal ou glomerulonefrite por imunocomplexos), extremidades (isquemia aguda de membros) e artéria coronariana (menos comum, mas possível). A ocorrência de embolias sistêmicas é mais frequente na EI aguda por S. aureus.
Bloqueios de condução: o papel do abscesso de anel
O aparecimento de bloqueios atrioventriculares em pacientes com EI pode indicar formação de abscesso de anel — coleção purulenta no anel fibroso valvar que comprime ou destrói o sistema de condução (nó AV e feixe de His). A presença de novo bloqueio de condução em paciente com EI suspeita ou confirmada é sinal de gravidade e pode indicar necessidade de intervenção cirúrgica precoce. O ecocardiograma transesofágico é o método de escolha para identificar essa complicação.
Fenômenos Embólicos e Imunológicos na Endocardite Infecciosa
Saber diferenciar o que é embólico do que é imunológico na EI é um dos diferenciais mais cobrados em provas de residência. A lógica é direta: fenômenos embólicos resultam de fragmentos de vegetação que se desprendem e obstruem vasos, enquanto fenômenos imunológicos decorrem da deposição de complexos imunes circulantes nos tecidos.
Fenômenos Embólicos
As embolias arteriais são a manifestação extravalvular mais temida. Fragmentos da vegetação seguem a corrente sanguínea, podendo atingir cérebro, baço, rins e artérias periféricas. As manchas de Roth — hemorragias retinianas com centro pálido — são achado sugestivo e representam microembolias sépticas na retina.
Fenômenos Imunológicos
Os nódulos de Osler são nódulos dolorosos, geralmente localizados nas polpas digitais e nas eminências tênares. Não são embolias — resultam de vasculite por deposição de complexos imunes circulantes na microvasculatura cutânea. Essa é a questão clássica de prova: se o enunciado descreve nódulo doloroso em polpa digital, a resposta correta é fenômeno imunológico, não embólico.
A glomerulonefrite focal também pertence ao grupo imunológico, causada pela deposição de complexos antígeno-anticorpo nos glomérulos.
Outros Sinais Periféricos
As lesões de Janeway são máculas eritematosas indoloras, localizadas nas palmas das mãos e plantas dos pés, e representam embolos sépticos na pele — ou seja, são embólicas, não imunológicas. A distinção-chave: Janeway (indolor, embólico) versus Osler (doloroso, imunológico).
| Sinal | Localização | Dor? | Fisiopatologia |
|---|---|---|---|
| Nódulos de Osler | Polpas digitais, entãoar | Sim | Imunológico (complexos imunes) |
| Lesões de Janeway | Palmas e plantas | Não | Embólico (séptico) |
| Manchas de Roth | Retina | Não | Embólico (microembolia) |
Na prática clínica, a EI subaguda tende a apresentar mais fenômenos imunológicos (Osler, glomerulonefrite), enquanto a forma aguda associa-se mais a embolias sépticas (Janeway, AVC).
Critérios de Duke Modificados — Versão 2000
O diagnóstico de EI exige a integração de dados clínicos, microbiológicos e de imagem dentro de um sistema padronizado: os Critérios de Duke Modificados (revisados em 2000). Os critérios classificam o caso como EI definitiva, EI possível ou EI rejeitada.
Critérios Maiores
1. Hemoculturas Positivas para EI:
- Duas hemoculturas positivas para organismos típicos de EI: S. aureus, S. viridans, grupo HACEK ou Enterococcus em paciente sem foco primário identificado.
- Hemoculturas persistentemente positivas: dois pares coletados com intervalo superior a 12 horas, ou três ou mais positivas com intervalo mínimo de 1 hora entre a primeira e a última.
- Uma única hemocultura positiva para Coxiella burnetii ou título de anticorpos IgG > 1:800.
2. Evidência de Comprometimento Endocárdico por Imagem:
- Vegetação (massa intracardíaca oscilante).
- Abscesso ou falso aneurisma cardíaco.
- Deiscência parcial de prótese valvar nova.
- Nova regurgitação valvar (mudança ou aumento de regurgitação previamente documentada é insuficiente).
Critérios Menores
| Critério menor | Detalhamento |
|---|---|
| Febre | Temperatura > 38°C |
| Predisposição cardíaca | Cardiopatia predisponente ou uso de drogas IV |
| Fenômenos vasculares/embolizantes | Embolia arterial maior, infarto pulmonar séptico, aneurisma micótico, hemorragia intracraniana, lesões de Janeway |
| Fenômenos imunológicos | Glomerulonefrite, nódulos de Osler, manchas de Roth, fator reumatoide positivo |
| Evidência microbiológica não maior | Hemocultura positiva que não preenche critérios maiores, ou sorologia positiva sem preencher critério maior |
| Evidência ecocardiográfica não maior | Achados sugestivos, porém insuficientes para critério maior |
Regra de Fechamento Diagnóstica
- EI Definitiva: 2 critérios maiores, OU 1 maior + 3 menores, OU 5 menores.
- EI Possível: 1 maior + 1 a 2 menores, OU 3 a 4 menores — demanda investigação complementar.
- EI Rejeitada: nenhuma combinação atendida.
Pontos para Memorização em Prova
- IgG > 1:800 para Coxiella é o único resultado sorológico que configura critério maior isoladamente.
- Ecocardiograma transesofágico é preferencial na suspeita de EI com prótese valvar, dispositivo implantado ou quando o transtorácico é inconclusivo.
- Hemoculturas: devem ser coletadas em dois sítios venosos diferentes e, idealmente, antes do início da antibioticoterapia.
• Uso de drogas IV
• Infarto pulmonar séptico
• Aneurisma micótico
• Hemorragia intracraniana
• Hemorragias conjuntivais
• Lesões de Janeway
• Nódulos de Osler
• Manchas de Roth
• Fator reumatoide positivo
(ou sorologia para organismo consistente com EI)
• 1 maior + 3 menores
• 5 critérios menores
• 3 a 4 critérios menores
• Resolução em ≤ 4 dias de ATB
• Nenhum critério patológico na cirurgia/autópsia
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Começar grátis →Atualização Duke-ISCVID 2023: o que mudou
A atualização dos critérios diagnósticos de EI publicada em 2023 pela Sociedade Internacional de Doenças Cardiovasculares Infecciosas (ISCVID) trouxe mudanças significativas que impactam diretamente a prática clínica e as provas de residência.
Principais mudanças
-
PET/TC com FDG como critério maior de imagem — elevada a critério maior para suspeita de EI em próteses valvares ou dispositivos cardíacos implantáveis, quando o ecocardiograma transesofágico é equívoco ou inconclusivo.
-
TC cardíaca como critério maior complementar — reconhecida para detecção de abscessos perivalvares e complicações supurativas, especialmente útil em próteses metálicas com artefatos ecocardiográficos.
-
TAVI reconhecido como fator de risco formal — o implante transcateter de valva aórtica foi incluído como fator de risco de EI com magnitude similar ao implante cirúrgico tradicional.
-
Dispositivos cardíacos permanentes como fator de risco — marcapassos e CDI foram formalmente incorporados como fator de risco nos critérios.
-
Evidência patológica perioperatória — a confirmação histopatológica de vegetações ou abscessos em material obtido durante cirurgia cardíaca passou a ter peso formal como critério maior.
O cenário brasileiro: disponibilidade e incorporação
A disponibilidade do PET/TC com FDG varia enormemente entre centros no Brasil. Hospitais de referência em capitais geralmente oferecem o exame, mas o acesso no sistema público ainda é limitado. A TC cardíaca tem distribuição um pouco mais ampla, mas também depende de equipamentos de alta resolução e protocolos específicos.
Até o momento, não há confirmação oficial de incorporação total dessas atualizações pelas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia ou da Sociedade Brasileira de Infectologia — informação em verificação. Para fins de prova, é prudente conhecer tanto os critérios clássicos de Duke modificados quanto as novidades de 2023.
Duke-ISCVID 2023 modified criteria for infective endocarditis — PubMed
Abordagem Diagnóstica Passo a Passo
Quando o plantonista se depara com um paciente febril, com sopro cardíaco novo e fatores de risco, a EI precisa entrar no radar. Seguir uma sequência lógica de investigação evita atrasos e erros.
1. Suspeita clínica: reconhecer o cenário
A tríade clássica que deve acender o alerta é febre de origem obscura + sopro cardíaco novo + fatores de risco para EI. Fenômenos embólicos (nódulos de Osler, lesões de Janeway, AVC isquêmico inexplicado) e insuficiência cardíaca de início recente reforçam a hipótese.
2. Hemoculturas: o pilar microbiológico
Antes de qualquer antibiótico, colete 3 pares de hemoculturas (aeróbias e anaeróbias) em sítios venosos periféricos diferentes, com intervalo mínimo de 1 par a cada hora. A única exceção é o paciente instável — com choque séptico, insuficiência cardíaca aguda ou embolização maciça — em que a antibioticoterapia empírica deve ser iniciada imediatamente.
3. Ecocardiograma: do TTE ao TEE
O ecocardiograma transtorácico (TTE) é o exame de primeira linha (sensibilidade ~60%). Quando o TTE é negativo mas a suspeita clínica permanece alta, ou em casos de valva protética, TAVI, ou suspeita de complicações, o ecocardiograma transesofágico (TEE) se torna preferencial (sensibilidade ~90–95%). Ecocardiograma transtorácico vs transesofágico — indicações
4. Laboratório complementar
- Hemograma: leucocitose com desvio à esquerda é frequente.
- VHS e PCR: quase sempre elevados.
- Urina tipo I: hematúria presente em cerca de 25% dos casos.
- FAN e fator reumatóide: podem estar positivos como parte da resposta imune crônica (critérios menores de Duke).
5. Critérios de Duke modificados: fechando o diagnóstico
O diagnóstico definitivo de EI exige 2 critérios maiores, OU 1 maior + 3 menores, OU 5 menores.
Para quem está se preparando para provas de residência, memorizar essa combinação de critérios é essencial. A plataforma medmentorIA oferece flashcards e resumos sobre os critérios maiores e menores de Duke, ideais para revisão espaçada antes da prova — transformando um conteúdo denso em algo aplicável na hora da decisão clínica.
Epidemiologia e Agentes Etiológicos no Brasil
A endocardite infecciosa mantém incidência global estimada entre 7 e 15 casos a cada 100 mil pessoas por ano. No Brasil, a incidência gira em torno de 9 casos por 100 mil pessoas/ano, com predominância na faixa etária de 40 a 70 anos e razão homem:mulher de 2:1. A mortalidade permanece em torno de 25%, mesmo com os avanços diagnósticos e terapêuticos das últimas décadas.
Mais de 50% dos pacientes apresentam alguma alteração valvar predisponente — cardiopatia reumática nos jovens e doença degenerativa nos idosos.
O papel da febre reumática no cenário brasileiro
Enquanto em países desenvolvidos a valvulopatia degenerativa e o uso de próteses dominam o perfil epidemiológico, no Brasil a febre reumática continua sendo o fator de risco mais comum para EI em jovens. Isso reflete diretamente o perfil de agentes etiológicos: o Streptococcus viridans — clássico agente da endocardite subaguda em valva nativa — lidera as estatísticas brasileiras, diferentemente do que se observa nos Estados Unidos, onde o Staphylococcus aureus já é o patógeno predominante.
Essa distinção tem implicações práticas diretas. Pacientes jovens com história de cardiopatia reumática e quadro febril prolongado devem levantar suspeição de EI por estreptococos, enquanto quadros agudos com sepse rapidamente progressiva apontam mais para estafilococos.
Agentes etiológicos por cenário clínico
| Cenário clínico | Agente mais provável | Esquema empírico geral |
|---|---|---|
| Valva nativa — subaguda | Streptococcus viridans | Ampicilina + Gentamicina |
| Valva nativa — aguda | Staphylococcus aureus | Oxacilina ou Vancomicina (se risco de MRSA) |
| Prótese valvar precoce (< 1 ano) | S. aureus, estafilococos coagulase-negativa, Gram-negativos | Vancomicina + Gentamicina + Rifampicina |
| Prótese valvar tardia (≥ 1 ano) | S. viridans, estafilococos, enterococos | Ampicilina + Gentamicina ± Vancomicina |
| Dispositivos eletrônicos implantáveis | S. aureus, estafilococos coagulase-negativa | Vancomicina + Rifampicina |
| Usuários de drogas injetáveis | S. aureus (tricúspide) | Oxacilina ou Vancomicina |
Em usuários de drogas injetáveis, o S. aureus é claramente prevalente, acometendo preferencialmente a valva tricúspide. Infecções fúngicas — por Candida ou Aspergillus — representam menos de 5% dos casos, mas devem ser consideradas em pacientes imunossuprimidos, pós-cirúrgicos ou com uso prolongado de cateteres venosos centrais.
Para aprofundar os critérios diagnósticos da febre reumática como fator de risco, consulte nosso material sobre Febre reumática aguda — critérios de Jones revisados 2015. Dados complementares sobre epidemiologia e microbiologia da EI no Brasil podem ser encontrados em Epidemiology and microbiology of infective endocarditis in Brazil — PubMed.
Quando Suspeitar e Como Agir na Prática
Diante de um paciente febril na emergência, a EI raramente é a primeira hipótese — e justamente por isso ela é diagnosticada tarde demais com frequência. O plantonista precisa de um gatilho mental claro para acender o alerta vermelho no momento certo.
Quando suspeitar de EI na prática clínica
- Febre acima de 38 °C de origem obscura com mais de uma semana de investigação sem diagnóstico definido, especialmente se o paciente tiver qualquer fator de risco (valvulopatia conhecida, prótese valvar ou dispositivo cardíaco implantável, uso de drogas intravenosas, cateter venoso central de longa permanência, história de EI prévia, cardiopatia congênita).
- Sopro cardíaco novo ou alteração de sopro preexistente — presente em 85–90 % dos pacientes com EI.
- Fenômenos embólicos inexplicados: AVC isquêmico em jovem, esplenomegalia com infarto esplênico, hemorragias conjuntivais, lesões de Janeway ou nódulos de Osler, embolização séptica pulmonar em usuários de drogas IV.
- Instabilidade hemodinâmica de causa obscura num portador de prótese valvar ou dispositivo.
- Insuficiência cardíaca de instalação aguda, sobretudo se acompanhada de febre — no acometimento da valva aórtica, a IC é a complicação mais frequente.
Nota clínica: A EI aguda, tipicamente por S. aureus, evolui em dias com estado toxêmico grave e alto risco de IC. A forma subaguda, mais associada a S. viridans no cenário brasileiro, arrasta-se por semanas a meses com sintomas insidiosos. Essa distinção muda a urgência da conduta.
Fluxograma de Ação Imediata para o Plantonista
A decisão mais crítica nos primeiros minutos é: coletar hemoculturas primeiro ou começar antibiótico agora? A resposta depende de uma avaliação rápida de gravidade.
Paciente ESTÁVEL (sem sinais de gravidade)
- Coletar 3 pares de hemoculturas periféricas (de sítios distintos, com intervalo mínimo de 1 hora entre o primeiro e o último par) ANTES de qualquer antibiótico.
- Solicitar ecocardiograma transtorácico (TTE) como exame inicial.
- Se a TTE for negativa mas a suspeita clínica permanecer alta, ou se o paciente tiver prótese valvar/dispositivo, solicitar ecocardiograma transesofágico (TEE).
- Aplicar os critérios de Duke com os dados disponíveis.
Paciente INSTÁVEL (sinais de gravidade presentes)
Iniciar antibioticoterapia empírica imediatamente, coletando as hemoculturas simultaneamente. As situações que justificam essa conduta são:
- Instabilidade hemodinâmica (hipotensão, choque séptico).
- Insuficiência cardíaca aguda secundária a disfunção valvar.
- Sepse grave com disfunção de órgãos.
- Abscesso perivalvar identificado ou fortemente suspeitado.
Nesses cenários, cada hora de atraso no antibiótico aumenta a mortalidade. As hemoculturas devem ser colhidas durante a infusão do primeiro antibiótico, não antes.
Resumo Prático em Tabela
| Cenário | Hemoculturas | Antibiótico | Ecocardiograma |
|---|---|---|---|
| Estável, suspeita clínica | 3 pares ANTES do ATB | Aguardar resultado | TTE → TEE se negativo/alta suspeita |
| Instável / IC / sepse / abscesso | Coletar simultaneamente ao ATB | Iniciar imediatamente | TEE direto se prótese ou complicação |
| Prótese valvar + febre | 3 pares antes (se estável) | Contexto-dependente | TEE de primeira linha |
Pontos de Atenção que Salvam Vidas
- Não existe esquema empírico universal para EI. O esquema depende do contexto: valva nativa versus prótese (precoce vs tardia) versus dispositivo cardíaco, e se o paciente é usuário de drogas intravenosas.
- Critérios de Duke são uma ferramenta, não um oráculo. Pacientes com próteses, dispositivos ou EI por Coxiella/Bartonella podem não preencher os critérios clássicos e ainda assim ter a doença. A clínica sempre manda.
- Hemoculturas negativas não excluem EI — até 10 % dos casos têm culturas estéreis por antibiótico prévio, agentes fastidiosos ou fungos. Nesses casos, sorologia, PCR e o ecocardiograma ganham protagonismo.
O recado final para o plantonista: diante de febre persistente + fator de risco + sopro novo, pense em EI antes de pensar em exotismo. Coletar as três hemoculturas periféricas antes do antibiótico no paciente estável é o gesto simples que mais muda o desfecho.
Diferenciação: Endocardite vs Febre Reumática e Outros Diagnósticos Diferenciais
Diagnosticar EI exige um olhar atento — diversas condições podem mimetizar o quadro de febre persistente, acometimento valvar e sinais laboratoriais inflamatórios. A confusão mais clássica acontece entre EI e febre reumática aguda (FRA), mas doenças como lúpus eritematoso sistêmico (LES), trombos não infecciosos e tumores cardíacos também entram no radar.
Endocardite Infecciosa × Febre Reumática Aguda: a grande armadilha
| Critério | Endocardite Infecciosa | Febre Reumática Aguda |
|---|---|---|
| Etiologia | Infecção direta da superfície endocárdica | Resposta autoimune pós-faringite por Streptococcus do grupo A |
| Tempo de latência | Quadro agudo (dias) ou subagudo (semanas) | 2 a 4 semanas após faringoamigdalite estreptocócica |
| Febre | Contínua, geralmente > 38°C, persistente | Febre associada a artrite, início mais breve |
| Sopro cardíaco | Novo sopro ou alteração de pré-existente (destruição valvar) | Cardite valvar (insuficiência mitral/aórtica por inflamação) |
| Sinais periféricos | Lesões de Osler, manchas de Roth, dedos em baqueta de tambor, esplenomegalia | Ausentes |
| Articulações | Artralgias inespecíficas | Artrite migratória de grandes articulações |
| Manifestações cutâneas | Raras (petéquias) | Eritema marginado (lesões anulares não pruriginosas) |
| Neurológico | Embolia séptica (AVC, meningite) | Coreia de Sydenham (movimentos involuntários, em crianças) |
| Diagnóstico | Critérios de Duke (hemocultura + ecocardiograma) | Critérios de Jones (manifestações major/minor + evidência de infecção estreptocócica prévia) |
| Exame laboratorial-chave | Hemocultura positiva, ecocardiograma com vegetações oscilantes | ASLO elevado, sorologias de estreptococo |
| Tratamento | Antibioticoterapia prolongada ± cirurgia | AAS, penicilina profilática secundária, anti-inflamatórios |
Atenção: Critérios de Duke e Critérios de Jones têm nomes sonoramente parecidos, mas se aplicam a doenças completamente distintas — uma é infecciosa, a outra é autoimune. Essa é uma das confusões mais frequentes em provas de residência.
Outros diferenciais essenciais
Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES): causa a endocardite de Libman-Sacks — vegetações estéreis sobre as valvas, geralmente menores e localizadas na face ventricular da valva mitral. FAN e anti-dsDNA positivos apontam para LES. O ecocardiograma mostra lesões menores e menos destrutivas que as vegetações de EI, e a hemocultura é negativa.
Trombo não infeccioso: trombos murais podem ser confundidos com EI. Vegetações de EI são tipicamente oscilantes, irregulares e móveis; trombos tendem a ser imóveis, com bordos definidos. A ausência de febre persistente, hemoculturas negativas e contexto de hipercoagulabilidade reforçam o diagnóstico de trombose.
Fibroelastoma papilífero: tumor cardíaco primário mais comum em adultos, geralmente assintomático, mas que pode causar embolia sistêmica. No ecocardiograma, aparece como lesão pequena, pediculada e móvel, com aspecto "frondoso" (semelhante a uma anêmona-do-mar), distinto das vegetações irregulares da EI.
Síndrome carcinoide: tumores neuroendócrinos produtores de serotonina causam placas endocárdicas fibrosas no lado direito do coração. O quadro cursa com flush cutâneo, diarreia e sibilos. O diagnóstico é confirmado pela dosação de 5-HIAA urinário elevado.
O ecocardiograma como divisor de águas
Em todos esses diferenciais, o ecocardiograma — especialmente o transesofágico — é o exame-chave. Ele permite avaliar mobilidade (vegetações de EI oscilam; trombos e placas de LES são fixos), localização, destruição tecidual e tamanho das lesões. A combinação de achados ecocardiográficos com o contexto clínico, hemoculturas e sorologias permite fechar o diagnóstico com segurança.
Para aprofundar os critérios diagnósticos de febre reumática, consulte: Febre reumática aguda — critérios de Jones revisados 2015
Conclusão
A endocardite infecciosa é uma infecção do endocárdio que forma vegetações compostas por plaquetas, fibrina e microrganismos, acometendo preferencialmente as valvas cardíacas em áreas de turbulência de fluxo. A febre está presente em 80–90% dos casos, e a identificação de um sopro novo ou insuficiência cardíaca deve acender o alerta clínico desde a primeira avaliação. A diferenciação entre as formas aguda e subaguda orienta a suspeita etiológica: a aguda evolui rapidamente com estado toxêmico, enquanto a subaguda tem curso insidioso ao longo de semanas a meses. Os sinais periféricos ajudam a distinguir mecanismos imunológicos — como nódulos de Osler e manchas de Roth — de manifestações embólicas, como as lesões de Janeway. O diagnóstico definitivo se apoia nos critérios de Duke modificados, que combinam achados clínicos, microbiológicos e de imagem, com a atualização de 2023 incorporando PET/TC-FDG e TC cardíaca como critérios maiores e incluindo TAVI e dispositivos eletrônicos como fatores de risco. No cenário brasileiro, a consciência sobre o papel da febre reumática e do Streptococcus viridans permanece essencial para a prática clínica. O reconhecimento precoce e a aplicação correta desses critérios são competências fundamentais para quem atua em clínica médica, infectologia e cardiologia — e também para quem se prepara para provas de residência.
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Perguntas Frequentes
Quais são os critérios maiores de Duke para endocardite infecciosa?
Critérios maiores: (1) hemoculturas positivas para organismos típicos ou persistentemente positivas, incluindo Coxiella (IgG > 1:800); (2) evidência de comprometimento endocárdico por imagem (vegetação, abscesso, deiscência de prótese nova, regurgitação nova — esta última elevada a maior na atualização 2023).
Qual a diferença entre nódulos de Osler e lesões de Janeway?
Nódulos de Osler são dolorosos, ocorrem nas polpas digitais e entãoar (fenômeno imunológico por complexos imunes); lesões de Janeway são indolores, palmares e plantares (embolos sépticos na pele). Uma questão clássica de prova é perguntar qual é de origem imunológica vs embólica.
Quando solicitar ecocardiograma transesofágico (TEE) e não o transtorácico (TTE)?
TEE (sensibilidade ~90–95%) é preferencial em valvas protéticas, TAVI, dispositivos cardíacos, alta suspeita com TTE negativa, e complicações suspeitas como abscesso perivalvar. TTE (sensibilidade ~60%) é exame inicial mesmo com baixa sensibilidade.
Como coletar hemoculturas corretamente antes de iniciar antibióticos?
Ideal: 3 pares de hemoculturas (1 aeróbia + 1 anaeróbia por par) em sítios venosos periféricos diferentes, com intervalo mínimo de 1h entre os pares. Não atrasar antibioticoterapia em pacientes instáveis — coletar hemoculturas simultaneamente e iniciar antibiótico.
O que mudou nos critérios de Duke com a atualização Duke-ISCVID 2023?
Inclusão de PET/TC com FDG e TC cardíaca como critérios maiores de imagem; TAVI e dispositivos cardíacos permanentes como fatores de risco formais; e regurgitação valvar nova elevada a critério maior. O PET/TC tem baixa disponibilidade no sistema público brasileiro.
Como diferenciar aguda e subaguda e qual o agente provável de cada uma?
Corte de 6 semanas: aguda (< 6 semanas) → S. aureus, válvula íntegra, toxemia, evolução rápida. Subaguda (≥ 6 semanas) → S. viridans, válvula já comprometida, início insidioso, melhor prognóstico.
Qual a incidência da endocardite infecciosa no Brasil?
Incidência estimada em ~9/100.000 pessoas/ano no Brasil; globalmente, 7–15/100.000/ano. Proporção homem:mulher de 2:1, faixa etária predominante 40–70 anos, mortalidade aproximada de 25%.
Quais são as indicações cirúrgicas na endocardite infecciosa?
IC refratária, abscesso perivalvar ou de anel, vegetações grandes (> 10mm) com embolias recorrentes, infecção não controlada por antibióticos (febre persistente > 5–7 dias) e infecção fúngica são as principais indicações cirúrgicas.



