As principais doenças de pele na prática clínica brasileira incluem a acne vulgar, a dermatite atópica, a psoríase, o vitiligo e a dermatite seborreica. O diagnóstico é predominantemente clínico, baseado na morfologia das lesões, na localização e na história do paciente. Dominar as classificações de gravidade é o que permite fazer a escolha terapêutica certa — e é exatamente isso que diferencia uma conduta segura de um encaminhamento desnecessário.
Para quem está no internato ou se preparando para provas de residência, a dermatologia pode parecer intimidadora pela variedade de condições. A boa notícia é que, com os critérios corretos em mãos, você aprende a raciocinar pelo padrão das lesões — e esse raciocínio se aplica tanto no ambulatório quanto nas questões do ENAMED 2026. Este guia reúne fisiopatologia, classificações, diagnósticos diferenciais e condutas atualizadas para as dermatoses mais prevalentes.
A Barreira Cutânea: O Que o Generalista Precisa Saber
A pele é o maior órgão do corpo humano e atua como primeira linha de defesa do organismo contra agentes físicos, químicos e biológicos. Ela é composta por três camadas — epiderme, derme e hipoderme — e quando essa barreira é comprometida, o paciente se torna vulnerável a infecções, alergias e inflamações crônicas.
O estrato córneo, a camada mais externa da epiderme, é o principal responsável por impedir a perda transepidérmica de água e bloquear a entrada de patógenos. Ele funciona como uma parede de tijolos — os corneócitos — unidos por uma argamassa lipídica composta por ceramidas, colesterol e ácidos graxos. Quando íntegro, esse manto lipídico mantém a hidratação tecidual e impede a penetração de alérgenos.
Dois comportamentos cotidianos fragilizam diretamente essa barreira:
- Banhos quentes e prolongados: a água em alta temperatura dissolve o manto lipídico, removendo a proteção natural da camada córnea.
- Baixa umidade do ar: contribui para a xerose cutânea, que pode desencadear o "ciclo coceira-arranhadura" e facilitar infecções secundárias.
Idosos merecem atenção especial: apresentam diminuição natural dos constituintes cutâneos, tornando-os mais suscetíveis à xerose e à fragilidade da barreira. A recomendação prática é aplicar hidratante corporal ao menos duas vezes ao dia em períodos de clima seco.
Existem cerca de 3.000 doenças dermatológicas catalogadas, e as queixas cutâneas estão entre os motivos mais frequentes de consulta na atenção primária. No Brasil, o generalista é frequentemente o primeiro a avaliar acne, dermatite atópica, psoríase, dermatite seborreica e vitiligo. As condições cutâneas são amplamente reconhecidas como problema global de saúde pública.
Para o médico em formação, reconhecer essas patologias e entender a fisiologia da barreira cutânea é parte essencial da prática clínica. Guia do Internato de Clínica Médica
Acne Vulgar: Fisiopatologia, Graus de Gravidade e Tratamento
A acne vulgar é a dermatose mais prevalente na prática clínica. Estima-se que afete aproximadamente 9,4% da população global, representando uma das queixas mais frequentes nos ambulatórios de dermatologia e clínica médica. Compreender sua fisiopatologia e classificação por graus de gravidade é o primeiro passo para um manejo terapêutico racional.
Os 4 Pilares Fisiopatológicos
A acne é uma doença inflamatória crônica da unidade pilossebácea, e sua formação depende da interação de quatro mecanismos fundamentais:
- Hiperqueratinização folicular: acúmulo excessivo de queratinócitos no infundíbulo folicular, obstruindo a saída do sebo e formando o comedão.
- Hiperprodução sebácea: estimulada principalmente por andrógenos, criando ambiente lipídico favorável à proliferação bacteriana.
- Colonização por Cutibacterium acnes: a bactéria coloniza o folículo obstruído e ativa vias inflamatórias, incluindo o inflamassoma NLRP3.
- Inflamação: a resposta imune inata e adaptativa gera pápulas, pústulas, nódulos e, nos casos mais graves, abscessos e fístulas.
Esses quatro pilares se retroalimentam: a obstrução favorece a colonização bacteriana, que amplifica a inflamação, que agrava a hiperqueratinização. Entender essa cascata é essencial para escolher o tratamento certo em cada grau.
Classificação em 5 Graus de Gravidade
| Grau | Classificação | Características Clínicas |
|---|---|---|
| Grau I | Acne comedônica (não inflamatória) | Comedões abertos e/ou fechados, sem lesões inflamatórias significativas |
| Grau II | Acne papulopustulosa leve | Comedões + pápulas e pústulas espalhadas, acometimento leve |
| Grau III | Acne papulopustulosa grave/nodular | Pápulas e pústulas numerosas + nódulos inflamatórios |
| Grau IV | Acne conglobata | Nódulos coalescentes, abscessos, fístulas e deformidades cutâneas |
| Grau V | Acne fulminante | Quadro sistêmico com febre, dor articular e possível acometimento ósseo |
Pontos-chave para fixar:
- A presença de comedões é o marcador que diferencia acne de rosácea — esta última não apresenta comedões e acomete predominantemente adultos entre 30 e 50 anos.
- A acne grau IV (conglobata) pode causar deformidades permanentes, exigindo intervenção agressiva.
- A acne grau V (fulminante) é uma emergência dermatológica: além das lesões cutâneas graves, o paciente pode apresentar febre, artralgia e lesões ósseas líticas.
- A acne neonatal é um diagnóstico à parte: geralmente regride espontaneamente até os 3 meses de vida.
Tratamento: Princípios Gerais
O tratamento segue lógica escalonada conforme o grau de gravidade. Alguns princípios são inegociáveis:
- Antibióticos orais (doxiciclina, minociclina) devem ser usados por no máximo 3 meses para evitar resistência bacteriana.
- Isotretinoína é o tratamento de escolha para acne grave (graus III a V) e para casos refratários. A dose cumulativa-alvo descrita na literatura acadêmica é de 120 a 150 mg/kg ao longo do tratamento, fracionada conforme a dose diária tolerada e monitoramento laboratorial.
- Clascoterona (antiandrogênico tópico), nova opção terapêutica para pacientes com acne vulgar, com menor risco de efeitos sistêmicos comparado aos antiandrogênicos orais — consulte as diretrizes vigentes de dermatologia para indicação, posologia e formulação disponível no Brasil.
Checklist de Gravidade da Acne Vulgar
Classificação por grau para decisão terapêutica
Acne Comedônica (Leve)
Comedões abertos e fechados, sem lesões inflamatórias significativas.
Acne Papulopustulosa (Leve a Moderada)
Comedões + pápulas e pústulas inflamatórias. Poucas lesões, sem cicatrizes profundas.
Acne Papulopustulosa Grave/Nodular (Moderada a Grave)
Nódulos inflamatórios, cistos superficiais. Risco de cicatrizes. Acometimento extenso.
Acne Conglobata (Grave)
Nódulos grandes, abscessos, fístulas e drenagem de material purulento. Cicatrizes graves.
Acne Fulminans (Muito Grave)
Início súbito, ulcerações necróticas, sintomas sistêmicos (febre, artralgia, mal-estar). Emergência dermatológica.
Escala de Gravidade
⚕️ Nota clínica: A classificação orienta a escolha terapêutica. Avalie sempre o impacto psicossocial e o risco de cicatrizes. Encaminhe ao dermatologista nos graus III–V.
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Começar grátis →Dermatites e Eczemas: Atópica, Seborreica e de Contato
Os eczemas formam um grupo de doenças inflamatórias da pele — não contagiosas — que afetam as camadas superficiais e compartilham características como eritema, prurido e lesões que variam conforme a fase clínica: na fase aguda predominam vesículas com exsudato claro; na crônica, observa-se liquenificação (espessamento da pele) e crostas. A dermatite de contato lidera em prevalência, correspondendo a cerca de 80% dos casos de eczema. Aproximadamente 20% das crianças pequenas são atingidas por dermatites, e em torno de 3% dos adultos convivem com doenças eczematosas.
Dermatite Atópica: Critérios Diagnósticos e Manejo Atualizado
A dermatite atópica é uma inflamação crônica da pele, especialmente comum em crianças e em centros urbanos. O diagnóstico clínico permanece o pilar da abordagem, e os critérios de Hanifin e Rajka continuam sendo a referência mais utilizada na prática médica.
Para o diagnóstico, o paciente deve apresentar pelo menos 3 critérios maiores e pelo menos 3 critérios menores:
Critérios Maiores:
- Prurito (obrigatório)
- Morfologia e distribuição típicas: lesões flexurais em adultos; lesões faciais e extensoras em crianças
- Dermatite crônica ou recorrente
- História pessoal ou familiar de atopia (asma, rinite alérgica, dermatite atópica)
Critérios Menores (seleção dos mais relevantes para a prática):
- Xerose (pele seca)
- Ictiose palmar, queratose pilar ou dermatite das mãos e pés
- Reatividade imediata em testes cutâneos (tipo I)
- IgE sérica elevada
- Início precoce da doença
- Tendência a infecções cutâneas (Staphylococcus aureus, Herpes simplex)
- Dobras infraorbitárias de Dennie-Morgan
- Pitiríase alba
- Conjuntivite recorrente
- Ceratocone
Apresentação por faixa etária: Em crianças, as lesões predominam na face (bochechas) e nas superfícies extensoras dos membros. Em adultos, tornam-se mais localizadas em áreas flexurais (antecubitais, poplíticas), pescoço, punhos e mãos, com liquenificação marcante.
Manejo em 2026: A base do tratamento começa com hidratação cutânea rigorosa, aplicada ao menos 2 vezes ao dia após o banho. Para casos moderados refratários a corticoides tópicos, os inibidores de JAK tópicos representam uma evolução terapêutica em desenvolvimento — bloqueiam a via JAK-STAT, reduzindo citocinas inflamatórias como IL-4, IL-13 e IL-31; a disponibilidade e indicação regulatória variam por país e devem ser confirmadas antes da prescrição.
O uso de corticoides tópicos segue princípio de escalonamento por potência e localização:
- Face, pálpebras e dobras: baixa potência (hidrocortisona 1%)
- Tronco e membros: média potência (mometasona, betametasona valerato)
- Mãos, pés e áreas liquenificadas: alta potência (clobetasol), por períodos curtos com desmame gradual
- Manutenção: uso em dias alternados ou intermitente ("weekend therapy") para minimizar atrofia cutânea
Dermatite Seborreica: Malassezia e Glândulas Sebáceas
A dermatite seborreica diferencia-se dos demais eczemas pela sua associação direta com o fungo Malassezia e pela predileção por áreas ricas em glândulas sebáceas — couro cabeludo, região central da face (sobrancelhas, sulcos nasolabiais), região esternal e retroauricular. Apresenta eritema com escamas gordurosas e amareladas, além de prurido geralmente leve. Em crianças, pode manifestar-se como "crosta láctea". O tratamento inclui antifúngicos tópicos (cetoconazol, ciclopirox olamina) e, em casos mais extensos, antifúngicos orais.
Dermatite de Contato: Alérgica e Irritativa
A dermatite de contato divide-se em irritativa (resposta tóxica direta, sem mecanismo imunológico) e alérgica (hipersensibilidade tardia mediada por linfócitos T). A história ocupacional e de hábitos é fundamental: cosméticos, metais (níquel), borracha, medicamentos tópicos e plantas estão entre os alérgenos mais comuns. O teste de patch (epicutâneo) é o exame padrão-ouro para identificação do alérgeno na forma alérgica.
A hidratação cutânea, aplicada ao menos 2 vezes ao dia, é uma recomendação transversal a todos os eczemas e deve ser encarada como parte do tratamento, não como cuidado acessório.
Psoríase: Doença Sistêmica e Imunomediada
A psoríase é uma doença inflamatória crônica, imunomediada e de natureza sistêmica — não se limita à pele. O ciclo de renovação dos queratinócitos, que normalmente leva cerca de 27 dias, é acelerado para apenas 4 dias, resultando na formação de placas espessas e descamativas. A variante vulgar (em placas) corresponde a 90% dos casos e é o fenótipo mais prevalente na prática clínica.
Diagnóstico Clínico e Dermatoscopia
O diagnóstico é fundamentalmente clínico, baseado na morfologia e distribuição das lesões: placas eritematosas com escamas prateadas, bem delimitadas, em superfícies extensoras (cotovelos, joelhos, couro cabeludo). O Sinal de Auspitz — também chamado de fenômeno do orvalho sangrento — ocorre quando a remoção mecânica das escamas revela pontos de sangramento capilar, refletindo a vascularização dérmica dilatada e fragilizada.
A dermatoscopia amplia a acurácia diagnóstica:
| Achado Dermatoscópico | Significado Patológico |
|---|---|
| Vasos em pontos distribuídos regularmente | Capilares dérmicos dilatados e tortuosos |
| Escamas brancas difusas | Hiperceratose e paraceratose epidérmica |
| Fundo vermelho-homogêneo | Inflamação dérmica crônica |
| Vasos glomerulares (espiralados) | Formas mais inflamativas ou em progressão |
Esses padrões ajudam a diferenciar psoríase de dermatite seborreica (vasos arboriformes) e de líquen plano (estrias de Wickham).
Fatores Genéticos e Fenótipos
O locus HLA-Cw6 (PSORS1) é o principal determinante genético da psoríase. Pacientes portadores desse alelo tendem a desenvolver a Psoríase Tipo 1, com início precoce (entre 20 e 30 anos) e forte história familiar. A prevalência na população geral varia de 1% a 3%, com acometimento de pele, articulações (artrite psoriásica) e unhas — manifestando-se como pitting, manchas salmão e onicólise.
Classificação de Gravidade: A Regra dos 10
A decisão terapêutica depende da estratificação de gravidade. A Regra dos 10 é o critério prático mais utilizado nas diretrizes:
- PASI > 10 (Psoriasis Area and Severity Index)
- BSA > 10% (Body Surface Area — superfície corporal acometida)
- DLQI > 10 (Dermatology Life Quality Index — impacto na qualidade de vida)
Quando qualquer um desses três parâmetros ultrapassa 10, a psoríase é classificada como moderada a grave, indicando necessidade de tratamento sistêmico. A psoríase eritrodérmica — forma grave e potencialmente fatal — pode comprometer 80% a 90% da superfície corporal, exigindo internação hospitalar.
Manejo Terapêutico em 2026
O arsenal para psoríase moderada-grave expandiu com os imunobiológicos: agentes anti-TNF (adalimumabe, etanercepte, infliximabe), anti-IL-17 (secuquinumabe, ixequizumabe, brodalumabe) e anti-IL-23 (guselcumabe, risankizumabe). A escolha considera comorbidades, perfil de segurança e acesso. A natureza sistêmica da psoríase exige abordagem multidisciplinar: rastreamento de artrite psoriásica, avaliação cardiometabólica e suporte psicológico fazem parte do cuidado integral.
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Diferencial Clínico
Psoríase vs. Líquen Plano vs. Dermatite Seborreica
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Vitiligo e Rosácea: Diagnóstico Diferencial e Novas Terapias
Duas condições frequentemente subestimadas na prática clínica — e com impacto profundo na qualidade de vida. A rosácea, com seu eritema centrofacial persistente, e o vitiligo, marcado por manchas acrômicas de origem autoimune, demandam abordagens distintas e merecem olhar atento.
Rosácea: Muito Além da "Pele Sensível"
A rosácea afeta predominantemente adultos entre 30 e 50 anos e seu diagnóstico é essencialmente clínico. O sinal mais distintivo para diferenciá-la da acne vulgar é a ausência de comedões — enquanto a acne se caracteriza pela presença de pápulas, pústulas e comedões, a rosácea manifesta-se por eritema centrofacial persistente, telangiectasias e, em fases avançadas, rinofima.
Os gatilhos são bem estabelecidos: calor, álcool e radiação UV são os principais fatores de exacerbação. Orientar o paciente sobre evitá-los faz parte do manejo tanto quanto a prescrição medicamentosa.
Um ponto que muitos subestimam é o acometimento ocular. A literatura descreve manifestações oculares em parcela significativa dos pacientes com rosácea — incluindo blefarite, conjuntivite e, em casos mais graves, ceratite. A investigação oftalmológica deve fazer parte da rotina de acompanhamento, especialmente quando o paciente relata olho seco, fotofobia ou sensação de corpo estranho.
Vitiligo: Destruição Autoimune dos Melanócitos
O vitiligo é a causa mais frequente de despigmentação cutânea e resulta da destruição autoimune dos melanócitos na epiderme. No Brasil, estima-se uma prevalência em torno de 0,54% da população, com surgimento predominante entre 13 e 22 anos (média de 20 anos). Cerca de 20% dos pacientes possuem parente de primeiro grau com a doença, e há forte associação com doenças tireoidianas — o que justifica a solicitação de perfil tireoidiano na investigação inicial.
A condição divide-se em dois grandes grupos:
- Vitiligo não segmentar (mais comum): lesões bilaterais e simétricas, com curso imprevisível
- Vitiligo segmentar: distribuição unilateral, tende a estabilizar mais precocemente
O diagnóstico é clínico, podendo ser auxiliado pela lâmpada de Wood, que acentua a despigmentação. O diagnóstico diferencial inclui hanseníase indeterminada — que se diferencia pela alteração de sensibilidade — e tinea corporis, confirmada por exame micológico.
Inibidores de JAK: Uma Nova Era no Tratamento do Vitiligo
Os inibidores de JAK têm emergido como opção terapêutica promissora para o vitiligo não segmentar, com evidência publicada na literatura recente. A classe atua bloqueando a via JAK-STAT, reduzindo a resposta autoimune contra os melanócitos e permitindo a repigmentação, principalmente em áreas faciais. A disponibilidade de formulações tópicas (como ruxolitinibe) e sua indicação formal variam conforme o país e o contexto regulatório; consulte as diretrizes locais antes de prescrever. A associação com fototerapia NB-UVB tem mostrado resultados promissores em estudos iniciais.
Para o médico residente, conhecer essa classe terapêutica representa uma mudança de paradigma no manejo de uma condição historicamente de difícil controle.
Manifestações Cutâneas de Alerta: Impetigo, Melanoma, Lúpus e Alopecia
Algumas manifestações cutâneas funcionam como sinais de alerta para condições graves — infecciosas, neoplásicas ou sistêmicas. Saber identificá-las precocemente muda desfechos. Veja os quatro cenários que todo generalista precisa dominar.
Impetigo: Bolhoso ou Crostoso, a Conduta Muda
O impetigo é a infecção bacteriana cutânea mais comum em crianças, causada principalmente por Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes. A distinção clínica entre as formas orienta diretamente a terapêutica:
- Impetigo crostoso (não bolhoso): forma mais prevalente, com lesões eritematosas que evoluem para crostas melicéricas ("cor de mel"). Tratamento de primeira linha: antibiótico tópico (mupirocina ou ácido fusídico), reservando antibiótico sistêmico para casos extensos ou sem resposta em 48–72 horas.
- Impetigo bolhoso: causado por cepas de S. aureus produtoras de toxinas epidermolíticas; apresenta bolhas flácidas de rompimento rápido. Por ter maior risco de disseminação, recomenda-se antibiótico sistêmico desde o início (cefalexina ou amoxicilina-clavulanato), mesmo em lesões localizadas.
Tratar impetigo bolhoso apenas com tópico é um erro frequente que pode evoluir para complicações — atenção especial nas questões de prova.
Melanoma: A Regra do ABCDE e a Importância Crítica da Letra "E"
O melanoma cutâneo representa percentual pequeno dos cânceres de pele, mas é responsável pela maioria das mortes por neoplasia cutânea. A regra do ABCDE é a ferramenta de triagem mais difundida, mas a letra E — Evolução é frequentemente subestimada e é, na prática clínica, um dos sinais de alerta mais importantes:
- A — Assimetria: uma metade da lesão não corresponde à outra
- B — Bordas irregulares, serrilhadas ou mal definidas
- C — Cor variada (tons de marrom, preto, azul, vermelho ou branco na mesma lesão)
- D — Diâmetro maior que 6 mm
- E — Evolução: qualquer mudança no tamanho, forma, cor, textura ou sintoma (prurido, sangramento) de uma lesão pré-existente. Pergunte ativamente: "Essa pinta mudou nos últimos meses?"
Lesões com evolução documentada merecem avaliação dermatoscópica e baixa tolerância para biópsia excisional quando houver suspeita clínica.
Lúpus Eritematoso Sistêmico: Fotossensibilidade em Mulheres Jovens
O LES atinge prioritariamente mulheres jovens em idade fértil, com proporção feminino:masculino de aproximadamente 9:1. A fotossensibilidade é uma manifestação clínica clássica do LES — presente nos critérios históricos do ACR e reconhecida como sinal de alerta — e manifesta-se como exantema desencadeado ou agravado pela exposição solar, incluindo o clássico eritema em asa de borboleta sobre a região malar e dorso do nariz; nos critérios EULAR/ACR 2019, o domínio mucocutâneo pontua lúpus cutâneo agudo/subagudo e úlceras orais.
Toda mulher jovem com eritema facial fotodistribuído, artrite e fadiga deve ter o LES no diagnóstico diferencial. A investigação inicial inclui FAN, anti-dsDNA, complemento (C3/C4) e hemograma. O encaminhamento precoce ao reumatologista reduz dano orgânico irreversível.
Micoses Superficiais e Alopecia Areata
As dermatofitoses (Tinea corporis, Tinea cruris, Tinea pedis) são causadas por fungos que colonizam áreas de calor e umidade. Um ponto que gera questões de prova é a duração do tratamento: pode variar de 7 a 60 dias dependendo da localização e extensão. Tinea capitis e onicomicose frequentemente exigem terapia sistêmica prolongada — oriente o paciente sobre adesão ao tratamento completo mesmo após melhora clínica aparente.
A alopecia areata é uma doença imunomediada que causa perda capilar não cicatricial em placas, mas com curso significativamente influenciado por fatores emocionais. Estima-se que parcela expressiva das doenças dermatológicas possua comorbidades psiquiátricas associadas — o manejo ideal é multidisciplinar, e ignorar a dimensão psicossomática compromete a resposta terapêutica.
Resumo dos pontos-chave desta seção:
- Impetigo bolhoso exige antibiótico sistêmico; o crostoso pode iniciar com tópico.
- No ABCDE do melanoma, a Evolução é um dos sinais mais importantes — pergunte sempre sobre mudanças recentes.
- LES deve ser suspeitado em mulheres jovens com fotossensibilidade e artrite.
- O tratamento de micoses superficiais comuns pode durar semanas; tinea capitis e onicomicose frequentemente exigem terapia mais prolongada — oriente adesão completa.
- Alopecia areata tem componente psicossomático relevante — investigue estresse e comorbidades psiquiátricas.
Conclusão
A dermatologia continua sendo, antes de tudo, uma especialidade clínica e visual. O médico generalista que domina as cinco dermatoses mais prevalentes — acne, dermatite atópica, psoríase, dermatite seborreica e vitiligo — consegue conduzir o manejo inicial com segurança, reduzir encaminhamentos desnecessários e beneficiar o sistema de saúde como um todo.
A tecnologia hoje trabalha a seu favor. Ferramentas de apoio diagnóstico baseadas em inteligência artificial funcionam como extensão do olhar clínico — nunca como substitutas. A perspectiva da IA na dermatologia em 2026 é de complementaridade: ela auxilia na triagem, na padronização de critérios e na sugestão de diagnósticos diferenciais, mas a decisão terapêutica final permanece com você, que integra história clínica, exame físico e contexto do paciente.
Esse domínio é exatamente o que o ENAMED 2026 e o internato exigem. As provas valorizam raciocínio clínico aplicado, não apenas memorização de classificações. Quando você entende a fisiopatologia por trás de uma placa eritemato-descamativa ou diferencia dermatite atópica de dermatite seborreica na prática, constrói a base que sustenta tanto a aprovação quanto a segurança no plantão. A medmentorIA pode ajudar você a percorrer esse caminho com estratégia e consistência.
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre acne e rosácea?
A principal diferença clínica é a presença de comedões (cravos) na acne, que estão completamente ausentes na rosácea. Além disso, a rosácea foca em eritema centrofacial persistente, telangiectasias e rinofima (nos casos avançados), enquanto a acne envolve obstrução da unidade pilossebácea com lesões inflamatórias variadas. A rosácea acomete predominantemente adultos entre 30 e 50 anos; a acne tem pico na adolescência, mas pode persistir na vida adulta.
O vitiligo tem cura ou apenas controle?
O vitiligo é uma condição crônica sem cura definitiva, mas o controle terapêutico avançou significativamente nas últimas décadas. O uso de inibidores de JAK tópicos (com evidência emergente em estudos recentes) associado à fototerapia NB-UVB tem demonstrado repigmentação em estudos iniciais, especialmente em áreas faciais; confirme disponibilidade e indicação regulatória no Brasil antes de prescrever. O objetivo terapêutico atual é estabilização da doença e repigmentação progressiva.
O que é o sinal de Auspitz na psoríase?
É o surgimento de pequenos pontos de sangramento — chamados de "orvalho sangrento" — após a remoção mecânica das escamas de uma placa de psoríase. Esse sinal reflete a vascularização dérmica dilatada e fragilizada, característica histológica da doença. É um achado semiológico clássico cobrado em provas e relevante no diagnóstico diferencial com outras dermatoses descamativas.
Como tratar impetigo em crianças?
Depende da forma clínica. No impetigo crostoso (não bolhoso), o tratamento de primeira linha é antibiótico tópico — mupirocina ou ácido fusídico — com antibiótico sistêmico reservado para casos extensos ou sem melhora em 48–72 horas. No impetigo bolhoso, por maior risco de disseminação, recomenda-se antibiótico sistêmico desde o início (cefalexina ou amoxicilina-clavulanato), independentemente da extensão das lesões.
A partir de qual grau de acne é indicado o uso de isotretinoína?
A isotretinoína é geralmente indicada a partir do Grau III resistente ao tratamento convencional, sendo obrigatória nos Graus IV e V. Também pode ser indicada em graus menores quando há alto risco de cicatrizes, impacto psicossocial grave documentado ou falha terapêutica com antibióticos sistêmicos por 3 meses. A dose cumulativa-alvo descrita na literatura é de 120 a 150 mg/kg ao longo do tratamento.



