A geriatria é uma das especialidades médicas que mais cresce no Brasil — e com boas razões. Com uma população que envelhece em ritmo acelerado, cuidar bem do paciente idoso deixou de ser uma escolha de nicho e passou a ser uma necessidade estrutural do sistema de saúde. Se você está pensando em seguir essa área, ou simplesmente quer entender melhor o que faz um geriatra, este artigo reúne tudo que você precisa saber: formação, mercado, reconhecimento profissional e perspectivas de carreira.
Antes de mais nada, vale contextualizar a dimensão do desafio. Segundo projeções do IBGE, a população brasileira com 60 anos ou mais deve mais que dobrar até 2070, saltando de aproximadamente 33 milhões (em 2023, representando 15,6% da população) para cerca de 75,3 milhões de idosos — algo em torno de 37,8% do total. Isso significa uma demanda crescente e estrutural por profissionais capacitados a lidar com as especificidades do envelhecimento humano.
A boa notícia é que a Geriatria já é uma especialidade médica formalmente reconhecida, com estrutura de formação bem definida, sociedade de especialidade ativa e mercado em expansão. A má notícia — ou a oportunidade, dependendo de como você lê — é que ainda somos poucos geriatras para um país tão populoso.
O que faz o médico geriatra
O médico geriatra é o especialista no cuidado de pessoas idosas — em geral, a partir dos 60 anos, conforme define o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003). O trabalho envolve o acompanhamento do paciente idoso em suas múltiplas dimensões de saúde, com uma abordagem que vai além do tratamento de doenças isoladas e considera o conjunto das condições presentes.
Uma das marcas da geriatria é a visão integral e interdisciplinar: tratar o idoso como um ser biopsicossocial, e não apenas como uma lista de diagnósticos.
A formação: como se tornar geriatra no Brasil
Pré-requisito obrigatório: Clínica Médica
A Geriatria não é de acesso direto após a graduação. Para ingressar em uma residência médica em Geriatria, você precisa, antes, concluir a residência em Clínica Médica — que tem duração de 2 anos. como funciona a residência médica em Clínica Médica no Brasil
Somente depois desse pré-requisito cumprido você pode concorrer às vagas de residência em Geriatria, que dura mais 2 anos. No total, são 4 anos de formação pós-graduada.
Esse modelo está estabelecido pela Resolução CFM nº 2.330, de 3 de março de 2023, que homologa a Portaria CME nº 1/2023 da Comissão Mista de Especialidades (AMB/CFM/CNRM) e lista oficialmente a Geriatria entre as 55 especialidades médicas reconhecidas no Brasil (junto a 62 áreas de atuação).
A bolsa de residência médica
Durante a residência, o médico recebe uma bolsa mensal de R$ 4.106,09, fixada pela Portaria Interministerial MEC/MS nº 9, de 13 de outubro de 2021, em vigor desde 1º de janeiro de 2022. O residente é contribuinte individual do RGPS, com desconto de 11% de INSS sobre esse valor.
Vale mencionar que iniciativas legislativas têm buscado o reajuste desse valor, mas, até o fechamento deste artigo, o valor oficial em vigor segue sendo R$ 4.106,09 brutos. A residência médica, como modalidade de pós-graduação, é regulada pela Lei nº 6.932, de 7 de julho de 1981, com regime de 60 horas semanais e exige credenciamento pela CNRM.
Há ainda, desde novembro de 2025, um incentivo-permanência regulamentado pela Portaria Interministerial MEC/MS nº 10/2025 para residentes que atuam em áreas e regiões estratégicas prioritárias para o SUS — o que pode beneficiar programas em regiões com menor cobertura geriátrica.
bolsa de residência médica: valores, INSS e o que esperar financeiramente
O Título de Especialista em Geriatria (TEG)
Concluir a residência em Geriatria é o caminho mais direto para obter o Título de Especialista em Geriatria (TEG), mas não é o único. O TEG é concedido conjuntamente pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e pela Associação Médica Brasileira (AMB), por meio de um Exame de Suficiência anual.
Estrutura do exame
O Exame de Suficiência para o TEG é composto por três etapas:
- Prova teórica
- Prova teórico-prática (prática)
- Análise curricular
Outras vias para o TEG
Além da via residência médica (Clínica Médica 2 anos + Geriatria 2 anos), a SBGG admite outras formas de comprovar a qualificação:
- Treinamento ou estágio em Geriatria de aproximadamente 3.840 horas (equivalente a 2 anos), após comprovação em Clínica Médica
- Atuação mínima de 4 anos em serviços de atendimento ao idoso supervisionados por geriatra titulado
Em todos os casos, o pré-requisito de formação em Clínica Médica é obrigatório.
O Título de Especialista em Geriatria (TEG)
- ✓Prova teórica
- ✓Prova teórico-prática (prática)
- ✓Análise curricular
- ✓Treinamento ou estágio em Geriatria de aproximadamente 3.840 horas (equivalente a 2 anos), após comprovação em Clínica Médica
- ✓Atuação mínima de 4 anos em serviços de atendimento ao idoso supervisionados por geriatra titulado
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Um crescimento expressivo — mas ainda insuficiente
Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025 (FMUSP/AMB/Ministério da Saúde), o Brasil conta com 3.167 geriatras — o que representa apenas 1,49 especialista por 100 mil habitantes e cerca de 0,7% do total de especialistas do país.
Para ter uma ideia da evolução: em 2011 eram 662 geriatras. Em 2025, chegamos a 3.167 — um crescimento de 378,4% em 14 anos. Impressionante, mas que ainda deixa um enorme déficit diante do tamanho e do envelhecimento da população brasileira.
Ao comparar com o conjunto geral de especialidades, a Geriatria segue sendo uma especialidade pequena: sete especialidades (Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia Geral, Ginecologia e Obstetrícia, Anestesiologia, Cardiologia e Ortopedia e Traumatologia) concentram sozinhas 50,6% de todos os especialistas do país.
Quem são os geriatras brasileiros
O perfil demográfico dos geriatras no Brasil, conforme a mesma pesquisa, revela algumas características interessantes:
- 62,1% são mulheres e 37,9% homens — proporção mais feminina do que a média das especialidades
- Idade média de 46,8 anos
- Distribuição regional desigual: Sudeste concentra 58,1% dos geriatras, seguido por Nordeste (16,9%), Sul (14,1%), Centro-Oeste (8,6%) e Norte (2,3%)
Essa concentração regional é um dado importante: há oportunidade de mercado significativa fora do Sudeste — especialmente no Norte e no interior do Nordeste, regiões com população idosa crescente e pouquíssimos especialistas disponíveis.
O mercado: onde estão os geriatras e onde faltam
- ✓62,1% são mulheres e 37,9% homens — proporção mais feminina do que a média das especialidades
- ✓Idade média de 46,8 anos
- ✓Distribuição regional desigual: Sudeste concentra 58,1% dos geriatras, seguido por Nordeste (16,9%), Sul (14,1%), Centro-Oeste (8,6%) e Norte (2,3%)
Oportunidades de mercado e perspectivas de atuação
Por que a demanda só tende a crescer
A lógica é simples: o Brasil está envelhecendo rapidamente, mas a oferta de geriatras ainda está muito aquém da necessidade. Enquanto os 60+ representavam 15,6% da população em 2023, as projeções do IBGE apontam para quase 38% em 2070. Esse crescimento não é linear — ele acelera nas próximas décadas, à medida que parcelas cada vez maiores da população alcançam as faixas etárias mais avançadas.
O Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) assegura às pessoas com 60 anos ou mais o direito à atenção integral à saúde pelo SUS, com prioridade especial para maiores de 80 anos. Isso implica obrigação legal do sistema público de ofertar esse cuidado — o que pressiona tanto o SUS quanto o setor privado a ampliar a cobertura geriátrica.
A desigualdade regional na distribuição dos especialistas — com mais da metade concentrada no Sudeste e apenas 2,3% no Norte — representa tanto um problema de acesso quanto uma oportunidade de mercado para quem estiver disposto a atuar fora dos grandes centros.
como montar uma agenda de consultório em especialidades clínicas
Perguntas frequentes
O geriatra pode atender pacientes com menos de 60 anos?
O foco da especialidade é o paciente idoso (60 anos ou mais, conforme o Estatuto da Pessoa Idosa). Na prática, a grande maioria dos atendimentos da Geriatria concentra-se nessa faixa etária.
Preciso necessariamente fazer residência em Geriatria para obter o TEG?
Não, mas a residência é o caminho mais direto e valorizado. A SBGG reconhece duas outras vias: treinamento/estágio de aproximadamente 3.840 horas em Geriatria, ou atuação por no mínimo 4 anos em serviços supervisionados por geriatra titulado. Em todos os casos, o pré-requisito de formação em Clínica Médica é obrigatório.
A distribuição de geriatras no Brasil é equilibrada?
Não. Conforme a Demografia Médica 2025, mais da metade dos geriatras brasileiros estão no Sudeste (58,1%). O Norte concentra apenas 2,3% dos especialistas — uma das regiões com menor cobertura de todo o país. Essa desigualdade representa tanto um problema de acesso quanto uma oportunidade de mercado para quem estiver disposto a atuar fora dos grandes centros.
A Geriatria tem boas perspectivas de longo prazo?
Os números apontam que sim. O envelhecimento populacional brasileiro é uma tendência estrutural e irreversível para as próximas décadas. O número de geriatras cresceu expressivamente nos últimos anos — 378,4% em 14 anos —, mas ainda é muito pequeno em relação à demanda projetada. Especialistas em envelhecimento devem seguir sendo profissionais valorizados.
Qual a diferença entre geriatra e gerontólogo?
O geriatra é o médico especialista no tratamento clínico de doenças e condições do idoso. O gerontólogo é um profissional com formação especializada nos aspectos do envelhecimento humano — não necessariamente médico. O TEG (Título de Especialista em Geriatria) é concedido conjuntamente pela SBGG e pela AMB.
Conclusão
A Geriatria é uma especialidade médica com futuro construído sobre uma certeza demográfica: o Brasil vai envelhecer. Com 3.167 geriatras para um país com população expressiva e crescente de idosos — e uma perspectiva de quase 38% de população idosa em 2070 —, a equação entre oferta e demanda favorece quem se especializa nessa área.
A formação exige compromisso: são 4 anos de residência (2 de Clínica Médica + 2 de Geriatria), e o caminho não é curto. Mas quem percorre essa trajetória encontra uma especialidade clinicamente rica, com demanda crescente em praticamente todos os setores do sistema de saúde.
Se você ainda está decidindo entre especialidades, considere a Geriatria não apenas pelo mercado, mas pelo que ela oferece do ponto de vista clínico: complexidade, longitudinalidade, trabalho em equipe e a chance de acompanhar pacientes em uma das fases mais importantes e delicadas da vida humana.