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Preparação • 18 min de leitura • 15 de jun. de 2026 

# DRGE: Sintomas, Classificação de Los Angeles e Condutas

Dra. Lara Santos Rocha

Residente de Clínica Médica — HC-USP-RP (FMRP-USP) · CRM-SP 285250

![DRGE: Sintomas, Classificação de Los Angeles e Condutas](https://ywclqnlfmrgtmezilnsj.supabase.co/storage/v1/object/public/blog-covers/doenca-refluxo-gastroesofagico-sintomas-tratamento.jpg)

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#### Neste artigo

-   [O Que Define a DRGE e Como a Barreira Antirrefluxo Funciona](#o-que-define-a-drge-e-como-a-barreira-antirrefluxo-funciona)
-   [Manifestações Clínicas: Sintomas Típicos e Atípicos da DRGE](#manifestacoes-clinicas-sintomas-tipicos-e-atipicos-da-drge)
-   [Diagnóstico Inicial: Teste Terapêutico com IBP e Sinais de Alarme](#diagnostico-inicial-teste-terapeutico-com-ibp-e-sinais-de-alarme)
-   [Exames Complementares: Classificação de Los Angeles e pHmetria](#exames-complementares-classificacao-de-los-angeles-e-phmetria)
-   [Manejo Terapêutico: Mudanças de Estilo de Vida e IBPs](#manejo-terapeutico-mudancas-de-estilo-de-vida-e-ibps)
-   [Tratamento Cirúrgico: Indicações e Fundoplicatura de Nissen](#tratamento-cirurgico-indicacoes-e-fundoplicatura-de-nissen)
-   [DRGE na Pediatria: Do Refluxo Fisiológico ao Patológico](#drge-na-pediatria-do-refluxo-fisiologico-ao-patologico)
-   [Complicações Graves: Esôfago de Barrett e Estenose Péptica](#complicacoes-graves-esofago-de-barrett-e-estenose-peptica)
-   [Conclusão](#conclusao)
-   [Perguntas Frequentes sobre DRGE](#perguntas-frequentes-sobre-drge)

A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é uma condição crônica causada pelo fluxo retrógrado do conteúdo gastroduodenal para o esôfago, gerando sintomas incômodos e, em alguns casos, lesões na mucosa. O diagnóstico é essencialmente clínico em pacientes jovens sem sinais de alarme, sustentado pelo **teste terapêutico com Inibidores de Bomba de Prótons (IBP)** — e entender essa lógica já resolve boa parte das questões que aparecem nas provas de residência.

Mas dominar a DRGE vai muito além de reconhecer a pirose clássica. É preciso saber classificar a esofagite pela **Classificação de Los Angeles**, identificar sintomas extraesofágicos que disfarçam o diagnóstico, escolher o exame complementar certo para cada cenário e reconhecer o momento de indicar cirurgia. Este guia cobre tudo isso com foco direto no que cai no **ENAMED 2026** e nas principais provas de residência médica.

* * *

## O Que Define a DRGE e Como a Barreira Antirrefluxo Funciona

Refluxo gastroesofágico é o retorno involuntário do conteúdo gástrico — ácido e, por vezes, bile — para o esôfago, decorrente do mau funcionamento do **esfíncter esofágico inferior (EEI)**. Quando esse retorno se torna repetitivo e gera sintomas ou lesões, estamos diante da DRGE.

No Brasil, estima-se que cerca de **12% da população** seja acometida, representando aproximadamente **20 milhões de pessoas** (confirme prevalência atualizada em fonte oficial Epidemiologia da DRGE no Brasil).

### A barreira antirrefluxo: três estruturas que trabalham juntas

A proteção contra o refluxo depende de uma unidade funcional composta por três elementos anatômicos:

-   **Esfíncter esofágico inferior (EEI):** anel muscular na junção esôfago-estômago que se abre para a passagem do alimento e se fecha em seguida, impedindo o retorno do conteúdo gástrico.
-   **Diafragma crural:** porção muscular do diafragma que envolve o esôfago, aumentando a pressão no segmento inferior durante a inspiração — justamente quando a pressão abdominal tende a empurrar o conteúdo para cima.
-   **Ângulo de His:** ângulo agudo na transição entre o fundo gástrico e o esôfago, que forma uma espécie de válvula anatômica, dificultando o refluxo.

Quando essas estruturas funcionam adequadamente, o refluxo permanece esporádico e sem consequência clínica. Alterações no tônus do EEI, falha no diafragma crural ou deslocamento anatômico — como ocorre na **hérnia de hiato** — comprometem essa barreira e facilitam a DRGE. Mesmo com a barreira alterada, o organismo ainda dispõe do **clareamento esofágico** (peristaltismo que devolve o conteúdo ao estômago), mas se esse mecanismo for ineficaz ou o ácido permanecer em contato prolongado com a mucosa, surgem sintomas e, eventualmente, lesões.

### Refluxo fisiológico versus DRGE: a diferença que importa

Nem todo episódio de refluxo é doença. O **refluxo fisiológico** é ocasional, autolimitado, tipicamente pós-prandial, de curta duração e assintomático ou com sintomas leves e transitórios — geralmente controlado apenas com medidas comportamentais simples, sem deixar lesões na mucosa esofágica.

Já a **DRGE** é caracterizada por refluxo repetitivo e sintomático, com possibilidade de lesão mucosa e impacto significativo no sono, na alimentação e nas atividades diárias. O que diferencia as duas situações é a **frequência e intensidade dos sintomas** e a **presença de lesões ou complicações** decorrentes do contato prolongado da mucosa com o conteúdo gástrico.

O esôfago é revestido por uma mucosa que **não está preparada** para o contato frequente com suco gástrico ácido. Quando o retorno se torna excessivo ou prolongado, surgem inflamação, erosões superficiais, dor retroesternal e sintomas extraesofágicos — quando o conteúdo atinge laringe e vias aéreas. Essa vulnerabilidade da mucosa está no centro da fisiopatologia da DRGE e é a partir dela que os critérios diagnósticos e as bases do tratamento fazem sentido.

* * *

## Manifestações Clínicas: Sintomas Típicos e Atípicos da DRGE

A DRGE se manifesta de formas que vão muito além da queimação no peito. Entender essa divisão é o primeiro passo para não deixar passar diagnósticos — especialmente nos casos em que o paciente não relata a pirose clássica.

### Sintomas típicos: esofágicos

Os dois sintomas-chave que sustentam a suspeita clínica de DRGE são a **pirose** (queimação retrosternal ascendente) e a **regurgitação** (retorno de conteúdo gástrico à boca ou hipofaringe, sem esforço de vômito). Quando ambos estão presentes, a probabilidade diagnóstica de DRGE é elevada, conforme as diretrizes internacionais de gastroenterologia.

A pirose costuma piorar após refeições volumosas, com alimentos gordurosos ou cafeína, e se intensifica no decúbito. A regurgitação pode ser ácida ou não ácida — o paciente frequentemente a descreve como "comida que volta" ou "gosto azedo na boca ao acordar".

Sintoma Típico

Característica Principal

Fatores de Piora

Pirose

Queimação retroesternal ascendente

Decúbito, refeições abundantes, alimentos gordurosos

Regurgitação

Retorno passivo de conteúdo gástrico

Inclinação anterior, esforço abdominal

### Sintomas atípicos e extraesofágicos

Aqui mora a armadilha diagnóstica. A DRGE pode se apresentar com manifestações que o próprio paciente — e até o clínico menos atento — não relaciona com refluxo:

-   **Tosse seca crônica**, especialmente noturna ou ao deitar
-   **Pigarro** repetitivo, sem evidência de infecção ativa
-   **Globus faríngeo** (sensação de "bolo" ou corpo estranho na garganta)
-   **Disfonia**, com rouquidão matinal que melhora ao longo do dia
-   **Asma refratária** ou crises desencadeadas pelo refluxo
-   **Erosão dentária** por contato crônico com ácido gástrico

### Refluxo laringofaríngeo: o refluxo sem pirose

O refluxo laringofaríngeo (RLF) ocorre quando o conteúdo gástrico — ácido e pepsina — atinge a laringe e a faringe. Diferentemente da DRGE clássica, **muitos pacientes com RLF não apresentam pirose ou regurgitação**, e os sintomas predominam durante o dia, em posição ortostática, não no decúbito.

Isso acontece porque a laringe possui **menor resistência à exposição ácida** comparada ao esôfago. O epitélio esofágico conta com mecanismos de defesa inatos (barreira mucosa, bicarbonato, clareamento motor) que a mucosa laríngea simplesmente não dispõe. Além disso, a pepsina pode permanecer ativa no tecido laríngeo mesmo em episódios de refluxo não ácido, perpetuando a inflamação local.

Na prática: um paciente com tosse seca há meses, múltiplas consultas por "alergia que não resolve" e exames pulmonares normais pode ter RLF como causa subjacente.

**Ferramentas de avaliação do RLF:**

-   **RSI (Reflux Symptom Index):** questionário autoaplicado com 9 itens que avalia sintomas laringofaríngeos; escores elevados sugerem RLF (consulte o ponto de corte na diretriz vigente).
-   **RFS (Reflux Finding Score):** escala obtida à laringoscopia que avalia edema, hiperemia e espessamento mucoso; escores elevados reforçam o diagnóstico (consulte o ponto de corte na diretriz vigente).

Ambos os escores, isoladamente, não confirmam o RLF, mas direcionam a investigação — especialmente quando associados a monitorização do refluxo (pHmetria de 24 horas com duplo sensor ou impedanciopHmetria), que pode ajudar em casos selecionados, embora o diagnóstico do RLF permaneça predominantemente clínico sem padrão-ouro único estabelecido.

## DRGE: Sintomas Típicos vs Atípicos

Manifestações clínicas da Doença do Refluxo Gastroesofágico

### Sintomas Típicos

Fácil reconhecimento clínico

🔥 Pirose

Sensação de queimação retroesternal ascendente, do estômago em direção ao pescoço.

↗️ Regurgitação

Retorno do conteúdo gástrico à boca ou hipofaringe sem esforço de vômito.

### Sintomas Atípicos

Desafio diagnóstico — investigar DRGE

🗣️ Tosse Crônica

Persistente, piora noturna ou pós-prandial.

🎤 Pigarro

Irritação laríngea por contato do refluxo com as pregas vocais.

🫁 Globus Faríngeo

Sensação de "bolo" ou corpo estranho na garganta.

💨 Asma Refratária

Crises desencadeadas ou agravadas pelo refluxo ácido.

🦷 Erosão Dentária

Desgaste do esmalte por contato crônico com ácido gástrico.

💡 Dica Clínica

Na presença de sintomas atípicos **refratários ao tratamento convencional**, investigue DRGE como causa subjacente. A associação com sintomas típicos aumenta a probabilidade diagnóstica.

* * *

## Diagnóstico Inicial: Teste Terapêutico com IBP e Sinais de Alarme

Em pacientes jovens — geralmente abaixo de 40 a 45 anos — que apresentam sintomas típicos de DRGE **sem sinais de alarme**, o diagnóstico pode ser feito clinicamente, sem necessidade inicial de exames invasivos. Nesses casos, o padrão de primeira linha é o **teste terapêutico com inibidor de bomba de prótons (IBP)**.

### Como funciona o teste terapêutico

O protocolo consiste em prescrever um IBP em **dose plena**, administrado **30 minutos antes do desjejum**, por um período de **4 a 12 semanas**. A melhora significativa dos sintomas com essa conduta **ratifica o diagnóstico de DRGE** e já orienta a continuidade do tratamento. Essa abordagem é prática, custo-efetiva e amplamente respaldada por diretrizes internacionais.

### Sinais de alarme (red flags): quando a EDA é obrigatória

Nem todo paciente pode seguir esse caminho. A presença de **red flags** exige **esofagogastroduodenoscopia (EDA) imediata**, independentemente da idade, pois indicam risco de complicações graves como estenose, úlcera, esôfago de Barrett ou neoplasia esofágica.

Sinal de Alarme

Por que exige EDA imediata

**Disfagia** (dificuldade para engolir)

Pode indicar estenose péptica, anel esofágico ou neoplasia

**Odinofagia** (dor ao engolir)

Sugere esofagite erosiva grave, úlcera ou lesão maligna

**Perda ponderal não intencional**

Red flag clássica para neoplasia ou complicação obstrutiva

**Anemia ferropriva**

Pode decorrer de sangramento crônico por lesões esofágicas ou gástricas

**Hematêmese ou melena**

Indica sangramento digestivo alto ativo

**Vômitos persistentes**

Sugere possível obstrução ou complicação mecânica

**Massa palpável ou linfadenomegalia**

Suspeita de doença neoplásica avançada

**Idade avançada com sintomas novos ou presença de fatores de risco para neoplasia/Barrett**

Maior risco de neoplasia esofágica e gástrica (o ponto de corte etário varia entre diretrizes; avaliar individualmente)

> **Na prática:** diante de qualquer um desses sinais, o teste terapêutico com IBP deve ser **postergado** em favor da EDA. A endoscopia permite visualizar diretamente a mucosa, coletar biópsias e descartar diagnósticos diferenciais graves.

A distinção entre "teste terapêutico como primeira conduta" e "EDA imediata na presença de red flags" é um dos temas mais cobrados nas provas de residência em gastroenterologia clínica.

* * *

## Exames Complementares: Classificação de Los Angeles e pHmetria

Quando a clínica não é suficiente para confirmar o diagnóstico — ou quando há necessidade de avaliar gravidade, planejar cirurgia ou investigar sintomas atípicos — entram em cena os exames complementares. Os dois pilares são a **Endoscopia Digestiva Alta (EDA)** e a **pHmetria esofágica de 24 horas**; em cenários de refluxo não ácido, a **impedanciopHmetria** amplia a capacidade diagnóstica.

### EDA e a Classificação de Los Angeles

A EDA é indicada na presença de sinais de alarme ou quando há falha terapêutica ao IBP em dose plena. Seu valor está em visualizar diretamente a mucosa, identificar lesões erosivas, estenoses e úlceras — e, quando há esofagite erosiva, classificá-la objetivamente pela **Classificação de Los Angeles** PubMed — Gastroesophageal Reflux Disease Guidelines.

Grau

Descrição

Extensão da lesão

**A**

Uma ou mais erosões mucosas ≤ 5 mm

Não se estende entre as pregas mucosas

**B**

Uma ou mais erosões mucosas > 5 mm

Não se estende entre as pregas mucosas

**C**

Erosões que se estendem entre duas ou mais pregas mucosas

Compromete menos de 75% da circunferência esofágica

**D**

Erosões que comprometem ≥ 75% da circunferência esofágica

Envolve quase toda a circunferência

-   **Graus A e B:** esofagite leve a moderada. Muitos pacientes com DRGE apresentam esses achados ou têm **endoscopia normal** (doença do refluxo não erosiva — DRNE).
-   **Graus C e D:** esofagite grave, associada a maior risco de complicações como estenose péptica e esôfago de Barrett.

Um detalhe importante: a classificação usa **milímetros e topografia anatômica** como parâmetros objetivos — não cor, friabilidade ou impressão subjetiva do endoscopista — o que a torna reprodutível e essencial para o acompanhamento evolutivo.

### pHmetria esofágica de 24 horas: o padrão-ouro funcional

Enquanto a EDA mostra estrutura, a **pHmetria** revela o que acontece ao longo de um dia inteiro: quantas vezes o esôfago é exposto a pH ácido (abaixo de 4,0), por quanto tempo e em que posição (de pé ou deitado).

**Indicações consagradas:**

1.  DRGE com endoscopia normal (DRNE) e suspeita clínica forte
2.  Falha ao tratamento com IBP em dose plena
3.  Sintomas extraesofágicos (tosse crônica, laringite, asma sem causa clara)
4.  Avaliação pré-operatória para cirurgia antirrefluxo
5.  Acompanhamento pós-cirúrgico para recidiva documentada

**Parâmetros sugestivos de DRGE:** o exame avalia o tempo total de exposição ácida (pH < 4) no canal distal e o índice de sintomas associados (SI) — correlação temporal entre queda de pH e sintoma relatado. Os pontos de corte variam conforme a diretriz; confirme sempre na referência vigente em sua instituição antes de interpretar o laudo.

### ImpedanciopHmetria: quando o refluxo não é ácido

Após uso crônico de IBP, o conteúdo refluído pode ser fracamente ácido ou alcalino (bile, pepsina). É nesse cenário que a **impedanciopHmetria** se diferencia: detecta movimentação retrógrada de líquido ou gás independente do pH e classifica cada episódio como ácido (pH < 4), fracamente ácido (pH 4–7) ou não ácido (pH > 7), permitindo correlação sintoma-refluxo mesmo em pacientes em uso de IBP.

**Resumo prático para prova:**

Exame

Pergunta que responde

Melhor indicação

EDA

Há lesão estrutural? Qual o grau?

Alarme, falha terapêutica, pré-cirurgia

pHmetria 24h

Há exposição ácida patológica?

DRNE, sintomas atípicos, pré-cirurgia

ImpedanciopHmetria

Há refluxo não ácido?

Sintomas persistentes com IBP e pHmetria negativa

* * *

Classificação de Los Angeles — Erosões Mucosas

Grau

Descrição

Extensão

A

Erosões mucosas ≤5mm, confinadas entre pregas

1 pregna

B

Erosões mucosas >5mm, confinadas entre pregas

1 pregna

C

Erosões que se estendem entre ≥2 pregasas, mas <75% da circunferência

<75%

D

Erosões que envolvem ≥75% da circunferência esofágica

≥75%

**Referência:** PubMed — Gastroesophageal Reflux Disease Guidelines

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## Manejo Terapêutico: Mudanças de Estilo de Vida e IBPs

O tratamento da DRGE se divide em dois pilares complementares: mudanças comportamentais e farmacoterapia. A prescrição isolada de medicamento, sem adequação do estilo de vida, frequentemente resulta em falha terapêutica e recorrência dos sintomas.

### Medidas comportamentais e não farmacológicas

As modificações no estilo de vida são recomendadas para **todos** os pacientes com DRGE, independentemente da gravidade:

-   **Perda de peso** quando há sobrepeso ou obesidade (o excesso de gordura abdominal aumenta a pressão intra-abdominal e favorece o refluxo)
-   **Elevação da cabeceira da cama** em 15 a 20 cm usando calços sob os pés do mobiliário — não apenas travesseiros extras
-   **Aguardar 2 a 3 horas** entre a última refeição e o horário de dormir
-   **Evitar alimentos desencadeantes** individualmente: café, chocolate, gorduras, frituras, álcool, refrigerantes, condimentos picantes, tomate e cítricos
-   **Cessar o tabagismo** (a nicotina reduz a pressão do EEI e estimula a secreção ácida)
-   **Evitar roupas apertadas** na região abdominal

### Inibidores de Bomba de Prótons (IBPs): primeira linha farmacológica

Os IBPs bloqueiam de forma irreversível a bomba H⁺/K⁺-ATPase das células parietais gástricas, reduzindo a produção de ácido e permitindo a cicatrização da mucosa esofágica. São a primeira linha do tratamento farmacológico da DRGE.

**Dosagens habituais na prática clínica** (confirme na bula e nas diretrizes vigentes):

IBP

Dose habitual

Administração

Omeprazol

20 mg/dia

30 min antes do desjejum

Pantoprazol

40 mg/dia

30 min antes da 1ª refeição

Esomeprazol

40 mg/dia

30–60 min antes do desjejum

Lansoprazol

30 mg/dia

30 min antes do desjejum

Rabeprazol

20 mg/dia

30 min antes do desjejum

**Duração do tratamento de indução:**

-   Sintomas típicos sem esofagite confirmada: **4 a 12 semanas** (teste terapêutico e tratamento inicial)
-   Esofagite erosiva confirmada por EDA: **8 semanas**

### DRGE não erosiva e terapia de manutenção

Na **DRGE não erosiva** — sem lesões visíveis à EDA, mas com sintomas típicos presentes — a resposta aos IBPs tende a ser inferior à da forma erosiva. Se houver resposta parcial ou ausente após 4 a 8 semanas, considere:

-   Dobrar a dose do IBP para uso duas vezes ao dia
-   Investigar dismotilidade esofágica ou hipersensibilidade visceral
-   Solicitar pHmetria ou impedanciopHmetria para confirmar refluxo patológico

A DRGE é uma condição **crônica e recorrente**. Após a indução de remissão, muitos pacientes necessitam de terapia de manutenção com a **menor dose eficaz do IBP** — o que pode significar dose reduzida, uso em dias alternados ou uso sob demanda — com reavaliação periódica da real necessidade de continuidade.

* * *

## Tratamento Cirúrgico: Indicações e Fundoplicatura de Nissen

O tratamento cirúrgico da DRGE não é primeira escolha, mas tem papel bem definido quando o manejo clínico falha ou quando o perfil anatômico do paciente favorece uma abordagem mais resolutiva. Para quem está em residência, entender **quando encaminhar** é tão importante quanto dominar o tratamento medicamentoso.

### Indicações principais para cirurgia

**Refratariedade ao tratamento clínico** Falamos em refratariedade quando há persistência dos sintomas típicos apesar de IBP em dose dupla por mínimo de 8 a 12 semanas, com medidas comportamentais adequadas, **comprovados por pHmetria ou impedanciopHmetria** que ainda demonstram refluxo patológico. A manometria esofágica é exame pré-operatório para avaliar motilidade e excluir acalasia — não documenta refluxo.

**Paciente jovem com uso crônico pretendido de IBP** Em pacientes jovens que precisariam de IBP por décadas, a fundoplicatura pode ser proposta mais precocemente quando há comprovação objetiva do refluxo e o paciente compreende os riscos cirúrgicos.

**Complicações associadas**

-   Esofagite de grau avançado (C ou D pela Classificação de Los Angeles) sem resposta clínica adequada
-   Estenoses pépticas que necessitam dilatações recorrentes
-   Esôfago de Barrett em casos selecionados com comprovação de refluxo persistente

**Grandes hérnias de hiato** Hérnias paraesofágicas ou mistas volumosas, especialmente se sintomáticas ou com risco de complicações agudas (volvo gástrico, encarceramento), têm indicação de correção cirúrgica, geralmente combinada com fundoplicatura. Hérnia de Hiato: Tipos e Tratamento

### Contraindicações relativas e cuidados na decisão

-   **Acalasia ou distúrbios motores graves do esôfago:** motilidade ineficaz pode se agravar com fundoplicatura completa; técnicas parciais ou tratamento da motilidade podem ser preferíveis.
-   **Obesidade grave sem plano de cirurgia bariátrica:** o excesso de peso aumenta a pressão intra-abdominal e o risco de insucesso; em muitos serviços, o bypass gástrico é preferido.
-   **Comorbidades com alto risco cirúrgico:** doença cardiorrespiratória grave ou distúrbios de coagulação descompensados podem indicar manutenção do tratamento clínico.

### Como funciona a Fundoplicatura de Nissen

A técnica padrão é a **fundoplicatura de Nissen por videolaparoscopia**, considerada padrão-ouro cirúrgico para DRGE.

O fundo gástrico é mobilizado e "enrolado" 360° ao redor do esôfago distal, formando uma válvula antirrefluxo que aumenta a pressão do EEI e contém o retorno do conteúdo gástrico. As etapas incluem:

1.  Laparoscopia com pequenas incisões abdominais
2.  Secção dos vasos curtos gástricos para liberar o fundo do estômago
3.  Redução da hérnia de hiato (se presente) e crurrafia (aproximação dos pilares diafragmáticos)
4.  Confecção da válvula de 360° com calibração por sonda (tamanho conforme técnica do serviço) para evitar rigidez excessiva
5.  Fixação da fundoplicatura com pontos que envolvem esôfago e estômago

O Nissen é uma técnica clássica com boa durabilidade em médio e longo prazo. Fundoplicaturas parciais (Toupet, Dor) podem apresentar controle de refluxo semelhante em pacientes selecionados, com menor risco de disfagia e síndrome de gases; a escolha depende da motilidade esofágica, anatomia, risco de disfagia e experiência do serviço.

**Complicações precoces a conhecer:**

-   Disfagia transitória nos primeiros meses
-   Síndrome de gases-inchamento (bloating)
-   Risco baixo, porém real, de deslocamento ou deslizamento da válvula

* * *

## DRGE na Pediatria: Do Refluxo Fisiológico ao Patológico

Na pediatria, o refluxo gastroesofágico é um evento frequente nos primeiros meses de vida e, na grande maioria das vezes, faz parte do desenvolvimento fisiológico do lactente. Estar atento à evolução clínica é essencial para saber quando ele deixa de ser benigno e passa a exigir investigação e conduta.

### Refluxo fisiológico no lactente

O pico de incidência do refluxo fisiológico ocorre por volta dos **4 meses de vida**, período em que o EEI ainda está em amadurecimento. Nesse cenário, o ganho de peso é adequado, a criança está bem-disposta e a regurgitação não causa sofrimento. Os episódios tendem a melhorar com o amadurecimento da junção gastroesofágica e a introdução de alimentos mais sólidos.

**Regurgitação versus vômito:**

-   **Regurgitação:** evento passivo, sem náusea, sem contração abdominal — padrão típico do refluxo fisiológico
-   **Vômito:** reflexo ativo com esforço muscular e náusea — sugere maior intensidade ou causa adicional (infecção, obstrução, distúrbio metabólico)

### Sinais de alarme que sugerem DRGE patológica em pediatria

-   **Baixo ganho ponderal ou perda de peso:** indica prejuízo nutricional e exige investigação
-   **Irritabilidade excessiva durante ou após as mamadas:** choro inconsolável, arqueamento do corpo (arching), recusa alimentar
-   **Síndrome de Sandifer:** episódios de postura tônica com extensão ou torção do pescoço e tronco, frequentemente confundidos com crises convulsivas
-   **Pneumonias de repetição, estridor, apneia ou sibilância:** sugerem aspiração ou comprometimento respiratório significativo
-   **Sangramento digestivo (hematêmese ou sangue nas fezes):** é sinal de alarme; hematêmese pode ocorrer por esofagite, enquanto sangue nas fezes em lactentes exige investigar outros diagnósticos (APLV, fissura anal, infecção) antes de atribuir à DRGE

Diante de qualquer desses sinais, a investigação deve ser aprofundada com avaliação nutricional e, em casos selecionados, pHmetria/impedanciopHmetria ou EDA. É importante também considerar a **Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV)**, que pode mimetizar ou coexistir com DRGE, com sobreposição de sintomas gastrointestinais, respiratórios e cutâneos. Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV) em Pediatria

Na hipótese de DRGE patológica, as medidas incluem adequação da técnica alimentar (menor volume, maior frequência, espessamento quando indicado), posicionamento ereto supervisionado por 20 a 30 minutos após as mamadas (sempre acordado) — nunca adotar posição prona ou elevação do berço durante o sono, que não são recomendadas e aumentam o risco de morte súbita do lactente — e, em casos selecionados, IBP. A maioria dos lactentes evolui com melhora espontânea até cerca de **1 ano de idade**.

* * *

## Complicações Graves: Esôfago de Barrett e Estenose Péptica

Quando a DRGE não é controlada adequadamente — seja por diagnóstico tardio, adesão insuficiente ao tratamento ou doença naturalmente grave — a exposição crônica da mucosa esofágica ao ácido pode levar a complicações relevantes. As duas mais importantes para dominar em provas e na prática clínica são o **esôfago de Barrett** e a **estenose péptica**.

### Esôfago de Barrett

O esôfago de Barrett é definido pela substituição do epitélio escamoso estratificado normal do esôfago distal por epitélio colunar especializado com células caliciformes (metaplasia intestinal), identificado à EDA com confirmação histológica por biópsia. É considerado uma das complicações mais relevantes e premalgnas da DRGE, com potencial de progressão para neoplasia — um importante **fator de risco para o adenocarcinoma de esôfago** — embora esofagite erosiva, estenose péptica e sangramento também sejam complicações clinicamente significativas.

**Quem tem maior risco de desenvolver Barrett?**

-   DRGE de longa data (geralmente mais de 5 anos de sintomas)
-   Sexo masculino
-   Idade acima de 50 anos
-   Obesidade central
-   Tabagismo
-   Raça branca

**Como manejá-lo:**

O manejo do esôfago de Barrett combina **supressão ácida contínua com IBP** (para reduzir a progressão das lesões) e **vigilância endoscópica com biópsias seriadas** para rastrear displasia. O intervalo de vigilância varia conforme o grau histológico:

Achado histológico

Conduta recomendada

Barrett sem displasia

EDA com biópsias a cada 3–5 anos (confirme protocolo na diretriz vigente)

Displasia de baixo grau

Avaliar ablação endoscópica ou seguimento em intervalo menor

Displasia de alto grau / carcinoma intramucoso

Tratamento endoscópico (ablação por radiofrequência, mucosectomia) ou cirúrgico em centros especializados

> **Atenção:** os intervalos de vigilância e as indicações de tratamento endoscópico variam entre as diretrizes (ACG, ESGE, SBGE). Consulte sempre o protocolo atualizado da sua instituição e a diretriz de referência vigente antes de definir a conduta.

### Estenose Péptica

A estenose péptica é o estreitamento do lúmen esofágico por fibrose secundária à inflamação crônica e cicatrização repetida das lesões erosivas. Manifesta-se clinicamente como **disfagia progressiva para sólidos**, inicialmente, evoluindo para líquidos nos casos mais avançados.

**Diagnóstico:** EDA — confirma a estenose, permite biópsias para excluir malignidade (diagnóstico diferencial obrigatório) e já possibilita o tratamento.

**Tratamento:** dilatação endoscópica com bougies (dilatadores de Savary-Gilliard) ou balões, associada a **IBP em dose plena** para reduzir a recorrência. Casos refratários a múltiplas dilatações podem eventualmente necessitar de avaliação cirúrgica.

A presença de estenose péptica é, por si só, um **sinal de alarme** que indica DRGE com exposição ácida intensa e prolongada — e exige investigação e controle rigoroso da doença de base.

* * *

## Conclusão

A Doença do Refluxo Gastroesofágico é, antes de tudo, um diagnóstico clínico. A anamnese bem feita — com atenção à pirose, regurgitação e aos sintomas extraesofágicos como tosse seca, pigarro e disfonia — já sustenta a maior parte da conduta inicial. Quando surgem sinais de alarme (disfagia, perda de peso, anemia, sangramento digestivo), a EDA passa a ser mandatória; a pHmetria é reservada para suspeita persistente com EDA normal, sintomas refratários, sintomas extraesofágicos selecionados ou avaliação pré-operatória.

O escalonamento terapêutico segue uma lógica progressiva: mudanças de estilo de vida e IBPs formam a primeira linha; a fundoplicatura entra em cena quando há falha no controle medicamentoso, hérnia volumosa ou complicações como esofagite grave — o esôfago de Barrett isoladamente não é indicação de cirurgia antirrefluxo; quando presente, a cirurgia pode ser considerada se houver refluxo objetivamente comprovado e sintomas persistentes. Saber identificar esse momento é exatamente o tipo de raciocínio que o **ENAMED 2026** cobra — não apenas o "o que fazer", mas "quando fazer e por quê".

Dominar a DRGE significa entender a fisiopatologia do mau funcionamento do EEI, reconhecer quando a mucosa esofágica já sofreu dano e conduzir o paciente com segurança do atendimento ambulatorial à indicação cirúrgica quando necessário. A medmentorIA estrutura o conteúdo de gastroenterologia priorizando exatamente esses pontos de maior cobrança, ajudando você a transformar conhecimento teórico em acerto de prova — e, mais importante, em conduta clínica segura.

* * *

## Perguntas Frequentes sobre DRGE

### Qual o tempo ideal do teste terapêutico com IBP?

O consenso indica de **4 a 12 semanas** com IBP em dose plena, administrado 30 minutos antes do desjejum. A resposta positiva (melhora significativa dos sintomas) ratifica o diagnóstico de DRGE e orienta a continuidade do tratamento.

### EDA normal exclui DRGE?

Não. Uma parcela significativa dos pacientes com DRGE apresenta a forma não erosiva da doença (DRNE), com endoscopia normal. Nesses casos, a pHmetria de 24 horas ou a impedanciopHmetria são os exames de escolha para confirmar o diagnóstico.

### Grávidas podem ter DRGE?

Sim. A gravidez favorece o refluxo por dois mecanismos: o **aumento da pressão intra-abdominal** pelo crescimento uterino e o **relaxamento do EEI** mediado pela progesterona. Os sintomas tendem a se resolver após o parto na maioria dos casos.

### O que é o Pseudosulcus vocalis?

É um achado laringoscópico caracterizado por edema infracordal bilateral, formando uma pseudoprega abaixo das cordas vocais verdadeiras. É considerado um sinal sugestivo de **refluxo laringofaríngeo (RLF)** e entra na composição do Reflux Finding Score (RFS) avaliado pelo otorrinolaringologista.

### Qual a cirurgia padrão-ouro para refluxo?

A **Fundoplicatura de Nissen por videolaparoscopia** — enrolamento de 360° do fundo gástrico ao redor do esôfago distal. É o procedimento com maior evidência de controle do refluxo gastroesofágico em médio e longo prazo. A IA M.A.E.S.T.R.O.® da medmentorIA pode ajudá-lo a revisar as indicações e contraindicações desse procedimento com flashcards personalizados e revisão espaçada.

DL

★ Caso nº 1 · role-model M.A.E.S.T.R.O.® 

Sobre a autora

### Dra. Lara Santos Rocha

Residente de Clínica Médica — HC-USP-RP (FMRP-USP) · CRM-SP 285250 

Médica residente de Clínica Médica no HC-USP-RP. Vive a preparação para residência por dentro — e revisa o conteúdo do blog com esse olhar prático.

1º lugar · FELUMA Aprovada · Einstein (HIAE) 

Caso de sucesso nº 1 da IA M.A.E.S.T.R.O.® — a trajetória de aprovação da Dra. Lara é o primeiro role-model a partir do qual o algoritmo M.A.E.S.T.R.O.® aprende e se calibra (fine-tuning). É o caso 1 de milhares de aprovações que a IA está aprendendo para guiar cada estudante.

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