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title: "Cefaleia em Salvas no PS: Diagnóstico e Manejo Completo · MedMentorIA"
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Especialidades • 21 min de leitura • 06 de jun. de 2026 

# Cefaleia em Salvas no PS: Diagnóstico e Manejo Completo

![Dra. Lara Santos Rocha](https://ywclqnlfmrgtmezilnsj.supabase.co/storage/v1/object/public/blog-covers/authors/dra-lara-santos-rocha.jpg)

Dra. Lara Santos Rocha

Residente de Clínica Médica — HC-USP-RP (FMRP-USP) · CRM-SP 285250

![Cefaleia em Salvas no PS: Diagnóstico e Manejo Completo](https://ywclqnlfmrgtmezilnsj.supabase.co/storage/v1/object/public/blog-covers/cefaleia-em-salvas-diagnostico-manejo-ps.jpg)

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#### Neste artigo

-   [O que é cefaleia em salvas?](#o-que-e-cefaleia-em-salvas)
-   [Como diagnosticar cefaleia em salvas no PS](#como-diagnosticar-cefaleia-em-salvas-no-ps)
-   [Diagnóstico diferencial no pronto-socorro](#diagnostico-diferencial-no-pronto-socorro)
-   [Tratamento da crise aguda no PS](#tratamento-da-crise-aguda-no-ps)
-   [Tratamento preventivo (profilático)](#tratamento-preventivo-profilatico)
-   [Cuidados não farmacológicos e encaminhamento](#cuidados-nao-farmacologicos-e-encaminhamento)
-   [Resumo prático: fluxograma de conduta no PS](#resumo-pratico-fluxograma-de-conduta-no-ps)
-   [Conclusão](#conclusao)
-   [Perguntas frequentes sobre cefaleia em salvas](#perguntas-frequentes-sobre-cefaleia-em-salvas)

Cefaleia em salvas é uma das condições mais devastadoras que cruzam a porta de um pronto-socorro — e uma das mais gratificantes de tratar quando o médico reconhece o quadro a tempo. Dor unilateral excruciante na região orbitária, lacrimejamento, ptose, agitação psicomotora: esse conjunto de sinais forma uma síndrome tão característica que o diagnóstico é essencialmente clínico, baseado nos critérios da Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3). No PS, cada minuto conta, e saber iniciar a oxigenoterapia em alto fluxo ou o sumatriptano subcutâneo pode interromper a crise em poucos minutos.

Este artigo traz o guia completo para diagnóstico e manejo da cefaleia em salvas na emergência — dos critérios diagnósticos ao fluxograma passo a passo, passando por contraindicações, tratamento preventivo e novidades terapêuticas. Se você é residente ou generalista que atura em PS, este conteúdo vai direto ao ponto que importa no plantão. ICHD-3 — International Classification of Headache Disorders, 3ª edição

## O que é cefaleia em salvas?

A cefaleia em salvas é uma cefaleia primária trigêmino-autonômica caracterizada por dor unilateral excruciante na região orbitária ou supraorbitária, acompanhada de sintomas autonômicos ipsilaterais — lacrimejamento, ptose palpebral, miose pupilar, rinorreia, hiperemia conjuntival e sudorese facial. Cada crise dura entre 15 e 180 minutos sem tratamento, e o paciente tipicamente apresenta agitação psicomotora intensa, andando de um lado para outro, ao contrário do que se vê na migrânea, onde o paciente busca repouso.

Trata-se da forma mais comum entre as cefaleias trigêmino-autonômicas. A prevalência na população geral é inferior a 1%, com proporção homem:mulher de aproximadamente 4:1. Mais de 80% dos pacientes diagnosticados são tabagistas, e história familiar positiva está presente em uma parcela significativa dos casos, sugerindo componente genético relevante.

### Fisiopatologia: o papel do hipotálamo

A fisiopatologia envolve ativação disfuncional do hipotálamo posterior, que funciona como gatilho central dos ataques. Estudos de neuroimagem funcional demonstram ativação hipotalâmica bilateral durante as crises, o que explica a periodicidade circadiana e sazonal tão marcante: os surtos tendem a ocorrer em horários previsíveis, frequentemente no início do sono, e se repetem com regularidade ao longo de semanas ou meses.

A via efetiva da dor envolve o nervo trigêmeo (componente sensitivo) e o sistema nervoso parassimpático via nervo facial (componente autonômico), com ativação do gânglio esfenopalatino. Essa dupla ativação explica simultaneamente a dor excruciante e os sintomas autonômicos que definem a síndrome. [Cefaleias na emergência: como diferenciar primárias de secundárias](/blog/medicina-de-emergencia-como-se-preparar)

## Como diagnosticar cefaleia em salvas no PS

### Critérios diagnósticos ICHD-3 aplicados ao PS

Diagnosticar cefaleia em salvas na emergência depende de reconhecer um padrão clínico muito específico. A ICHD-3 organiza o diagnóstico em cinco critérios:

**1\. Critério A — Número mínimo de crises:** pelo menos cinco crises ao longo da vida, para excluir dores isoladas que mimetizam o padrão.

**2\. Critério B — Características da dor:** dor unilateral, de intensidade severa ou muito severa, localizada na região orbitária, supraorbitária ou temporal. Classicamente descrita como "uma ponta de broca" ou "um ferro em bracingo no olho".

**3\. Critério C — Duração sem tratamento:** cada crise não tratada dura entre 15 e 180 minutos. Dores com menos de 15 minutos sugerem neuralgia do trigêmeo ou SUNCT/SUNA; dores com mais de 3 horas levam a pensar em migrânea prolongada.

**4\. Critério D — Frequência:** durante o período ativo, as crises ocorrem com frequência de uma a oito por dia, com periodicidade notória — muitos pacientes relatam que a dor desperta no mesmo horário noturno todas as noites.

**5\. Critério E — Sintomas autonômicos:** pelo menos um dos seguintes sinais deve acompanhar a dor do mesmo lado: lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal ou rinorreia, edema palpebral, sudorese frontal ou facial, ptose palpebral e/ou miose pupilar.

### Forma episódica versus forma crônica

O ICHD-3 distingue dois subtipos com implicações prognósticas e terapêuticas diferentes:

-   **Forma episódica:** os períodos de salvas duram de 7 dias a 1 ano, separados por remissão igual ou superior a 3 meses. É a apresentação mais comum.
-   **Forma crônica:** as crises persistem sem remissão ou com remissão inferior a 3 meses, exigindo estratégia de profilaxia de longo prazo mais agressiva.

No PS, a distinção imediata nem sempre é possível — o paciente pode estar indo ao médico durante sua primeira janela de crises. Questionar sobre episódios semelhantes nos últimos meses ou anos e sua periodicidade sazonal já fornece a informação necessária.

### Sinais autonômicos cranianos: como reconhecê-los no exame

-   **Lacrimejamento:** aumento no olho ipsilateral, frequentemente o primeiro sinal notado.
-   **Hiperemia conjuntival:** olho vermelho sem secreção purulenta.
-   **Rinorreia ou congestão nasal:** nariz escorrendo ou entupido do mesmo lado da dor.
-   **Edema palpebral:** inchaço discreto da pálpebra superior ipsilateral.
-   **Sudorese frontal e facial:** transpiração localizada na hemiface do lado da dor.
-   **Ptose e/ou miose:** queda parcial da pálpebra e pupila contraída — melhor avaliadas com lanterna comparando ambos os olhos.

> **Dica prática:** peça para o paciente fotografar os olhos durante uma crise. Ptose e hiperemia são transitórias e podem desaparecer antes da avaliação — a foto serve como documentação visual que corrobora o diagnóstico.

### Agitação psicomotora: o sinal-chave que separa da migrânea

Na migrânea, o paciente busca silêncio e escuridão. Na cefaleia em salvas, o oposto: o paciente anda de um lado para o outro, balança o tronco, não consegue ficar deitado. Essa inquietação é tão característica que ver um paciente com dor unilateral orbitária intensa perambulando pelo setor de emergência já eleva drasticamente a suspeita.

> Na prática da medmentorIA, quando o estudante acessa o conteúdo de cefaleias primárias, esse raciocínio de diferenciação — incluindo o comportamento de agitação versus imobilidade — aparece como ponto de fixação em questões comentadas que treinam exatamente esse corte diagnóstico no PS. cefaleias primárias

Critério

ICHD-3

**A**

≥ 5 crises na vida

**B**

Dor unilateral, severa, orbitária/supraorbitária/temporal

**C**

15–180 min sem tratamento

**D**

1 a 8 crises/dia

**E**

≥ 1 sintoma autonômico ipsilateral

## Diagnóstico diferencial no pronto-socorro

Em um cenário onde 2 a 4% das visitas a emergências são motivadas por cefaleia não traumática, a capacidade de diferenciar as três cefaleias primárias mais comuns — salvas, migrânea e tensional — faz toda a diferença entre um manejo adequado e a perda de uma janela terapêutica crucial.

### Tabela comparativa: salvas vs migrânea vs tensional

Característica

Cefaleia em Salvas

Migrânea (Enxaqueca)

Cefaleia Tensional

**Localização**

Unilateral, periorbitária/temporal

Unilateral (pode alternar), fronto-temporal

Bilateral, "em faixa" ou difusa

**Intensidade**

Excruciante, "pior dor da vida"

Moderada a grave

Leve a moderada

**Qualidade**

Perfurante, em pontada

Pulsátil

Em aperto/pressão

**Sintomas autonômicos**

Obrigatórios: lacrimejamento, rinorreia, ptose, agitação

Náusea, vômito, fotofobia, fonofobia

Ausentes

**Comportamento**

Inquietação, não deita, anda de um lado para outro

Repouso em ambiente escuro e silencioso

Geralmente mantém atividades

**Duração da crise**

15 a 180 minutos

4 a 72 horas

30 minutos a 7 dias

**Frequência**

1 a 8 crises/dia por semanas, com remissão

Variável (esporádica a crônica)

Episódica a crônica

**Tratamento agudo**

O₂ 100% máscara não rebreathing (12–15 L/min) + Sumatriptano SC 6 mg

AINES + triptano (oral/SC)

AINES (paracetamol, ibuprofeno)

### O mnemônico SNOOP: quando desconfiar de algo mais grave

Nem toda cefaleia no PS é primária. O mnemônico SNOOP identifica red flags para cefaleias secundárias:

-   **S — Sinais sistêmicos:** febre, perda de peso, história de neoplasma ou imunossupressão.
-   **N — Déficit neurológico focal:** fraqueza motora, alteração visual persistente, déficits de linguagem.
-   **O — Início súbito (thunderclap):** dor que atinge intensidade máxima em menos de 1 minuto — clássico de hemorragia subaracnoidea.
-   **O — Primeira crise após 50 anos:** cefaleia nova nessa faixa etária pede investigação rigorosa.
-   **P — Padrão mudante ou progressivo:** dor piorando em frequência ou intensidade ao longo de semanas.

Quando qualquer letra do SNOOP é positiva, a investigação com neuroimagem se torna mandatória.

### Exames de imagem: quando e o que pedir

-   **TC de crânio sem contraste:** primeiro exame quando o paciente chega com início súbito (thunderclap), para excluir hemorragia subaracnoidea. Alta sensibilidade para sangue agudo nas primeiras 6 horas.
-   **RM de crânio com protocolo de seio cavernoso e hipófise:** exame preferencial quando há sinais de alarme positivos no SNOOP, primeira crise atípica ou dúvida diagnóstica significativa.

**O diagnóstico da cefaleia em salvas típica é clínico.** Se o paciente preenche todos os critérios e não apresenta red flags, a imagem não é obrigatória. Expor o paciente a exames desnecessários atrasa o tratamento e sobrecarrega o sistema.

Para aprofundar o mnemônico SNOOP e suas aplicações, confira o material dedicado sobre \[red flags em cefaleia\]Mnemônico SNOOP para red flags em cefaleia. Se precisar revisar o diagnóstico e manejo da migrânea na emergência, o conteúdo específico sobre \[enxaqueca no PS\][Enxaqueca: diagnóstico e manejo no pronto-socorro](/blog/medicina-de-emergencia-como-se-preparar) está disponível para consulta.

Recomenda-se a revisão da revisão sistemática disponível no PubMed sobre cefaleia em salvas para evidências atualizadas sobre fisiopatologia, diagnóstico e tratamento PubMed — Cluster Headache: Pathophysiology, Diagnosis, and Treatment (revisão sistemática).

## Diagnóstico Diferencial das Cefaleias

Comparação rápida para uso no Pronto-Socorro

Critério

⚡ Cefaleia em Salvas

🧠 Migrânea

🔄 Cefaleia Tensional

Localização

Unilateral periorbitária

Unilateral frontotemporal

Bilateral difusa

Característica

Lancinante / "furo"

Pulsátil / latejante

Pressão / aperto

Intensidade

⚠️ Excruciante

Moderada a intensa

Leve a moderada

Duração

15–180 min

4–72 horas

30 min – 7 dias

Sintomas autonômicos

✅ Lacrimejamento, rinorreia, ptose

Náusea, fotofobia, fonofobia

❌ Ausentes

Comportamento durante crise

Inquietude / agitação

Repouso, isolamento

Sem alteração

Frequência

1–8 episódios/dia

Variável (episódica)

Diária ou quase diária

💡 Dica clínica:

A cefaleia em salvas é a **única cefaleia primária** que causa agitação intensa durante a crise — o paciente geralmente anda de um lado para outro, ao contrário da migrânea.

## Tratamento da crise aguda no PS

Quando o paciente chega ao pronto-socorro com dor excruciante unilateral orbitária, lacrimejamento e agitação psicomotora, cada minuto conta. O manejo precisa ser rápido, assertivo e baseado em evidências.

### Oxigenoterapia: a primeira linha que salva

A oxigenoterapia inalatória é o tratamento de escolha para a crise aguda:

-   **Oxigênio a 100%**, em alto fluxo, na faixa de **12 a 15 L/min**
-   Administrado por **máscara não rebreathing com reservatório**
-   Tempo de aplicação: **15 a 20 minutos** contínuos
-   Reavaliar o paciente após 20 minutos

A eficácia é impressionante: a maioria dos pacientes apresenta alívio significativo em até 15 minutos. O mecanismo envolve vasoconstrição cerebral mediada pela hiperóxia e modulação do gânglio trigeminal. É seguro, barato e deve ser iniciado imediatamente.

> **Dica prática:** posicione o paciente sentado ou levemente reclinado. A máscara precisa estar bem vedada — qualquer vazamento reduz a concentração de O₂ entregue e compromete a resposta.

### Sumatriptano subcutâneo: quando o O₂ não basta

Se a oxigenoterapia for insuficiente ou indisponível, o **sumatriptano 6 mg por via subcutânea** é a segunda linha consagrada.

-   **Início de ação:** 10 a 15 minutos
-   **Via:** subcutânea (coxa ou abdome)
-   Pode ser repetido após 24 horas, respeitando o limite máximo diário

**Efeitos adversos mais comuns:** parestesia, tontura, sensação de calor, dor no local da injeção, sensação de aperto no peito (geralmente transitória e benigna).

### Contraindicações dos triptanos: atenção redobrada

Os triptanos são vasoconstritores e têm contraindicações cardiovasculares absolutas. **NÃO usar sumatriptano em pacientes com:**

-   Doença arterial coronariana conhecida ou suspeita
-   História prévia de AVC ou AIT
-   Hipertensão arterial não controlada
-   Doença vascular periférica
-   Migrânea com aura hemiplegica ou basilar
-   Uso concomitante de derivados de ergotamina ou IMAO

Na prática do PS: **sempre checar história cardiovascular antes de prescrever.** Um ECG e uma anamnese rápida podem evitar complicações graves.

### Alternativas quando o sumatriptano não é opção

-   **Sumatriptano intranasal 20 mg:** quando a via subcutânea não é viável. Início de ação mais lento, mas ainda eficaz.
-   **Octreotida subcutânea 100 mcg:** alternativa em pacientes com contraindicação cardiovascular aos triptanos. Age como análogo da somatostatinha, modulando a via trigêmino-autonômica, com perfil cardiovascular mais seguro.

### O que NÃO fazer: erros que pioram o quadro

-   **Opioides são ineficazes para dor neurovascular** e podem cronificar o quadro. **NÃO usar.**
-   **Analgésicos comuns (dipirona, paracetamol, AINEs) não têm velocidade de ação suficiente** para uma crise que atinge intensidade máxima em segundos. Não prescrever como primeira linha.
-   **Evitar procedimentos invasivos desnecessários** sem indicação — eles atrasam o tratamento efetivo.

> **Resumo da conduta no PS:**
> 
> 1.  O₂ 100% — 12-15 L/min — máscara não rebreathing — 15-20 min
> 2.  Se falha: sumatriptano 6 mg SC (se sem contraindicação cardiovascular)
> 3.  Alternativas: sumatriptano intranasal 20 mg ou octreotida 100 mcg SC
> 4.  Nunca: opioides, analgésicos comuns como primeira linha

Com a IA M.A.E.S.T.R.O.®, é possível treinar esse raciocínio em cenários simulados de PS, garantindo que o reconhecimento e o manejo da cefaleia em salvas sejam automáticos quando o paciente chegar à sua frente.

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## Tratamento preventivo (profilático)

O tratamento preventivo deve ser iniciado já na primeira consulta, concomitantemente à terapia abortiva. O objetivo é reduzir a frequência e a intensidade das crises enquanto o paciente aguarda o encaminhamento neurológico especializado — e esse encaminhamento é mandatório, pois o ajuste de doses e o monitoramento laboratorial exigem acompanhamento contínuo.

### Verapamil — primeira linha profilática

O verapamil é o medicamento de escolha para prevenção, tanto na forma episódica quanto na crônica. A dose inicial é de **80 mg, 3 vezes ao dia**, com titulação gradual conforme a resposta clínica, podendo chegar a doses mais altas divididas em doses.

**Ponto crítico para o plantonista: ECG obrigatório.** Antes de iniciar o verapamil e a cada aumento de dose, é imprescindível solicitar eletrocardiograma. O risco de bloqueio atrioventricular é real e pode ser silencioso.

### Corticoterapia — ponte terapêutica

Enquanto o verapamil ainda não atingiu a dose eficaz, a prednisona entra como "ponte" para controle rápido. O esquema habitual é **prednisona 60 a 100 mg/dia**, com redução gradual ao longo de **2 a 3 semanas**.

A corticoterapia não deve ser mantida a longo prazo pelos efeitos adversos conhecidos, mas é extremamente útil para quebrar o ciclo de crises intensas enquanto o preventivo de primeira linha faz efeito.

### Lítio — indicação na forma crônica

O lítio é reservado principalmente para a **cefaleia em salvas crônica**, quando o verapamil isolado não controla adequadamente. A dose varia conforme resposta clínica, com monitoramento sérico rigoroso — a janela terapêutica alvo e o monitoramento de função renal e tireoidiana reforçam a necessidade de seguimento neurológico estruturado.

Medicamento

Dose inicial

Monitoramento

Indicação principal

Verapamil

80 mg 3x/dia (titular conforme resposta)

ECG antes e durante titulação

Primeira linha (episódica e crônica)

Prednisona

60-100 mg/dia, taper em 2-3 semanas

Glicemia, pressão arterial

Ponte terapêutica

Lítio

Conforme resposta clínica

Litemia, função renal e tireoidiana

Forma crônica

### Novidades 2024–2025: anti-CGRP como perspectiva emergente

Uma revisão publicada em 2025 no _Journal of Headache and Pain_ sugeriu eficácia preliminar do **galcanezumab** — anticorpo monoclonal anti-CGRP — para cefaleia em salvas episódica. Os dados ainda são iniciais e o medicamento **não foi incorporado formalmente às diretrizes como primeira linha**, mas representa uma perspectiva terapêutica promissora, especialmente para pacientes refratários aos esquemas convencionais.

### Reforço: o seguimento neurológico é inegociável

Nenhum dos esquemas profiláticos apresentados aqui deve ser conduzido sem acompanhamento especializado. A titulação do verapamil, o monitoramento do lítio e a decisão sobre terapias biológicas emergentes são responsabilidades do neurologista. O papel do plantonista é iniciar a profilaxia, garantir o encaminhamento e orientar o paciente sobre a importância da aderência ao seguimento ambulatorial.

## Cuidados não farmacológicos e encaminhamento

O manejo da cefaleia em salvas vai muito além da prescrição de medicamentos. Após estabilizar a crise aguda, o médico tem um papel fundamental na educação do paciente e na construção de um plano de seguimento.

### Cessação do tabagismo: medida adjuvante essencial

Mais de 80% dos pacientes com cefaleia em salvas são tabagistas. Embora a relação causal exata ainda não esteja completamente esclarecida, a cessação do tabaco é fortemente recomendada como parte integrante do tratamento. O tabaco pode atuar como gatilho para as crises e está associado a um curso mais refratário da doença.

### Álcool e outros gatilhos durante os períodos de salva

Durante os períodos de salva, o consumo de álcool é um gatilho bem documentado e pode desencadear crises intensas em questão de minutos. Oriente o paciente a evitar completamente bem alcoólicas enquanto estiver em período ativo. Alterações no padrão de sono, exposição a odores fortes e mudanças bruscas de temperatura também devem ser discutidos.

### Educação do paciente: reduzindo a ansiedade com informação

A cefaleia em salvas é uma condição benigna — não está associada a risco de vida ou lesões estruturais cerebrais —, mas é considerada uma das dores mais intensas que um ser humano pode experimentar. Muitos pacientes chegam ao PS convencidos de que estão tendo um AVC ou aneurisma roto. Explicar a natureza da doença, o padrão estereotipado das crises e o prognóstico ajuda a reduzir significativamente a ansiedade.

Um ponto importante: parte dos pacientes pode apresentar deslocamento lateral da dor em crises subsequentes — a dor pode migrar para o lado oposto em surtos futuros. Isso **não** exclui o diagnóstico e não deve ser motivo de alarme.

### Seguimento neurológico: por que ele é indispensável

O atendimento no PS resolve a crise aguda, mas o controle efetivo depende de seguimento ambulatorial regular com neurologista. É no consultório que o médico poderá ajustar doses profiláticas, considerar novas terapias, monitorar efeitos adversos e reavaliar o diagnóstico caso haja mudanças no padrão da dor.

-   **Cessar o tabagismo** — parte do tratamento
-   **Evitar álcool durante os períodos de salva** — gatilho bem documentado
-   **Manter padrão regular de sono** — alterações podem precipitar surtos
-   **Buscar seguimento neurológico regular** — essencial para ajuste de profilaxia
-   **Entender que deslocamento lateral da dor pode ocorrer** — não invalida o diagnóstico

A combinação de tratamento farmacológico adequado, educação do paciente e seguimento especializado oferece as melhores chances de controle da doença e melhoria na qualidade de vida.

## Resumo prático: fluxograma de conduta no PS

Quando o paciente chega ao PS com dor unilateral excruciante na região orbitária, acompanhada de lacrimejamento e agitação psicomotora, o tempo é um aliado — ou um inimigo. A cefaleia em salvas exige uma sequência lógica de decisões. Abaixo, o passo a passo completo para consulta rápida durante o plantão.

### Fluxograma de conduta: 7 etapas

**1\. Suspeita clínica de cefaleia em salvas**

Dor unilateral, orbitária ou supraorbitária, descrita como "a pior dor da vida", com duração entre 15 e 180 minutos, acompanhada de sintomas autonômicos ipsilaterais. O paciente tende a ficar inquieto e agitado — não busca repouso no escuro.

**2\. Aplicar critérios diagnósticos do ICHD-3**

-   Pelo menos 5 crises documentadas
-   Dor unilateral intensa, orbitária, supraorbitária ou temporal
-   Duração de 15 a 180 minutos (se não tratada)
-   Frequência de 1 a 8 crises por dia durante o período ativo
-   Presença de pelo menos um sintoma autonômico ipsilateral ou sensação de inquietação/agitação

**3\. Aplicar o mnemônico SNOOP para excluir causas secundárias**

Letra

Sinal de alerta

**S**

Sintomas sistêmicos (febre, perda de peso, câncer, HIV)

**N**

Sinais neurológicos focais (déficit motor, papiledema)

**O**

Início súbito ("thunderclap")

**O**

Idade de início ≥ 50 anos (primeiro episódio)

**P**

Padrão de mudança (cefaleia progressiva ou nova)

Se qualquer item for positivo, investigue com neuroimagem antes de seguir o fluxo de cefaleia primária.

**4\. Iniciar oxigênio de alto fluxo (primeira linha)**

O₂ a 12-15 L/min por máscara não rebreathing por 15 a 20 minutos. Iniciar imediatamente ao diagnóstico. Oriente o paciente a manter a máscara bem ajustada.

**5\. Reavaliar em 20 minutos**

-   **Se houve melhora significativa:** manter observação, orientar acompanhamento neurológico e prosseguir para alta com orientações.
-   **Se não houve melhora:** administrar sumatriptano 6 mg SC, desde que sem contraindicações cardiovasculares.

**6\. Reavaliar em 15 minutos após o sumatriptano**

-   **Se houve melhora:** prosseguir para alta com orientações.
-   **Se persiste sem melhora:** considerar octreotida 100 mcg SC como terceira linha ou reavaliar o diagnóstico — retome o SNOOP e considere neuroimagem se ainda não realizada.

**7\. Alta com orientações estruturadas**

-   Prescrição de verapamil para início imediato como profilaxia (com ECG antes do início e acompanhamento para monitorar intervalo PR)
-   Orientação sobre gatilhos: abstinência absoluta de álcool durante o período ativo; encaminhamento para cessação do tabagismo
-   Encaminhamento neurológico para acompanhamento ambulatorial
-   Orientação sobre periodicidade circadiana e sazonal das crises

> ⚠️ **ALERTA: NÃO utilize opioides no manejo da cefaleia em salvas.** Opioides não têm eficácia comprovada, mascaram a resposta terapêutica, atrasam o tratamento adequado e aumentam o risco de cronificação e dependência. Se o paciente não respondeu a oxigênio e sumatriptano, o problema provavelmente é diagnóstico — não farmacológico.

Na prática, plataformas como a medmentorIA já disponibilizam materiais de consulta rápida para cenários de cefaleia no PS, e com a IA M.A.E.S.T.R.O.® é possível treinar a tomada de decisão sequencial com base em casos clínicos simulados — o que acelera a internalização desse fluxo durante o plantão real.

## 🧠 Cefaleia em Salvas no PS

Fluxograma de conduta — 7 etapas do diagnóstico ao encaminhamento

1 

🔍 Suspeita Clínica

Dor periorbitária unilateral intensa, lacrimejamento, rinorreia ipsilateral, agitação psicomotora

2 

📋 Critérios ICHD-3

≥5 crises, dor unilateral severa, duração 15–180 min, sintomas autonômicos cranianos ipsilaterais

3 

🚩 Aplicar SNOOP

Sinais de alarme: sintomas sistêmicos, neurológico focal, início súbito, onset após 50 anos, padrão progressivo

4 

💨 O₂ Alto Fluxo — 1ª Linha

Máscara não-rebreather a 12–15 L/min por 15–20 min. Iniciar IMEDIATAMENTE ao diagnóstico

5 

⏱️ Reavaliação (15–20 min)

Houve alívio significativo? → **SIM** = manter O₂ e observar · **NÃO** = próxima etapa

6 

💉 Sumartriptano SC — 2ª Linha

6 mg via subcutânea se falha do O₂. Alternativa: triptano nasal. Contraindicado em doença cardiovascular

7 

📤 Alta com Encaminhamento

Encaminhar para neurologista. Verapamil para profilaxia. Evitar gatilhos (álcool, nitratos). Orientar retorno se recorrência

**⚠️ Lembrete:** TC de crânio se SNOOP positivo ou 1ª crise para excluir causas secundárias · O₂ alto fluxo tem eficácia de ~70% em 15 min

## Conclusão

De todas as dores que cruzam a porta de um pronto-socorro, poucas se comparam à cefaleia em salvas. Com prevalência inferior a 1% na população geral, ela é rara — mas, para quem a experimenta, é frequentemente descrita como a pior dor da vida, superando até cólica renal e parto. O médico de emergência ocupa uma posição decisiva: é ele quem pode interromper aquela agonia em minutos, desde que reconheça o quadro e aja com precisão.

O diagnóstico é essencialmente clínico, ancorado nos critérios do ICHD-3: dor unilateral excruciente na região orbitária ou supraorbitária, com duração de 15 a 180 minutos, acompanhada de pelo menos um sinal autonômico ipsilateral — lacrimejamento, ptose, miose, coriza ou hiperemia conjuntival. A agitação psicomotora do paciente, que não consegue ficar parado (diferentemente da enxaqueca), é uma pista valiosa. Antes de fechar o diagnóstico, porém, o mnemônico SNOOP deve ser aplicado para excluir causas secundárias que exigem investigação urgente.

No manejo agudo, a oxigenoterapia em alto fluxo (12–15 L/min com máscara não rebreathing) é o tratamento de primeira linha. Quando o oxigênio não está disponível ou não é suficiente, o sumatriptano subcutâneo (6 mg) é a segunda linha recomendada. Um ponto crítico que todo emergenciista deve internalizar: **opioides devem ser evitados**. Além de ineficazes para esse tipo de dor, eles mascaram o quadro, atrasam o diagnóstico correto e expõem o paciente a risco de dependência.

Para prevenir novas crises, o verapamil é a profilaxia de escolha, com acompanhamento eletrocardiográfico. O encaminhamento neurológico ambulatorial é indispensável — tanto para ajuste terapêutico de longo prazo quanto para avaliação de casos refratários. Os anticorpos monoclonais anti-CGRP, já aprovados para enxaqueca, vêm sendo estudados para cefaleia em salvas e representam uma perspectiva promissora.

Em resumo: reconheça pelo ICHD-3, descarte secundárias com SNOOP, trate com oxigênio em alto fluxo, evite opioides e encaminhe para neurologia. São poucos passos, mas cada um deles pode transformar o desespero de um paciente em alívio real.

## Perguntas frequentes sobre cefaleia em salvas

**1\. Cefaleia em salvas é enxaqueca?**

Não. São entidades completamente distintas. A cefaleia em salvas é uma cefaleia trigêmino-autonômica, com dor unilateral excruciante (orbitária ou supraorbitária), duração de 15 a 180 minutos e sintomas autonômicos ipsilaterais. O paciente apresenta agitação psicomotora marcante — diferentemente da enxaqueca, em que o paciente busca repouso.

**2\. Qual o fluxo de oxigênio indicado para crise de cefaleia em salvas?**

Oxigênio a 100% em alto fluxo, entre 12 e 15 L/min, administrado por máscara não rebreathing, por 15 a 20 minutos. Essa é a primeira linha para tratamento agudo, com evidência de eficácia na interrupção da crise quando iniciado precocemente.

**3\. Posso usar opioides para cefaleia em salvas?**

Não é recomendado. Opioides são ineficazes para dor de natureza neurovascular e podem cronificar o quadro, além do risco de dependência. O tratamento agudo de escolha inclui oxigênio em alto fluxo e sumatriptano subcutâneo.

**4\. Quando solicitar tomografia ou ressonância magnética?**

A neuroimagem é indicada para excluir causas secundárias, especialmente na primeira crise, na presença de sinais de alarme (SNOOP+), ou quando o quadro é atípico. A ressonância magnética com protocolo de seio cavernoso e hipófise é preferencial para investigação detalhada.

**5\. Qual a diferença entre a forma episódica e a crônica?**

Na forma episódica, as crises ocorrem em períodos que duram de 7 dias a 1 ano, com remissão de pelo menos 3 meses. Na forma crônica, as crises persistem por mais de 1 ano sem remissão ou com remissão inferior a 3 meses.

**6\. Quais são as contraindicações do sumatriptano?**

O sumatriptano é contraindicado em pacientes com doença arterial coronariana, história de AVC ou AIT, hipertensão arterial não controlada, doença vascular periférica, migrânea hemiplegica ou basilar, e uso concomitante de ergotamina ou IMAO. Por ser um agonista serotoninérgico com efeito vasoconstritor, seu uso em pacientes com risco cardiovascular pode desencadear eventos isquêmicos graves.

> **Dica para provas:** Memorize o mnemônico **SNOOP** para sinais de alarme de cefaleia secundária — ele aparece com frequência em questões de residência e é essencial na tomada de decisão no plantão.

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Sobre a autora

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Médica residente de Clínica Médica no HC-USP-RP. Vive a preparação para residência por dentro — e revisa o conteúdo do blog com esse olhar prático.

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