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title: "Alterações eletrocardiográficas na miocardite: como reconhecer · MedMentorIA"
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Preparação • 13 min de leitura • 30 de jun. de 2026 

# Alterações eletrocardiográficas na miocardite: como reconhecer

Dra. Lara Santos Rocha

Residente de Clínica Médica — HC-USP-RP (FMRP-USP) · CRM-SP 285250

![Alterações eletrocardiográficas na miocardite: como reconhecer](https://ywclqnlfmrgtmezilnsj.supabase.co/storage/v1/object/public/blog-covers/alteracoes-eletrocardiograficas-na-miocardite-como-reconhecer.jpg)

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#### Neste artigo

-   [Por que o ECG importa na miocardite?](#por-que-o-ecg-importa-na-miocardite)
-   [Definição, epidemiologia e relevância clínica](#definicao-epidemiologia-e-relevancia-clinica)
-   [Fisiopatologia das alterações eletrocardiográficas](#fisiopatologia-das-alteracoes-eletrocardiograficas)
-   [Os principais achados eletrocardiográficos](#os-principais-achados-eletrocardiograficos)
-   [Marcadores eletrocardiográficos de prognóstico](#marcadores-eletrocardiograficos-de-prognostico)
-   [Diagnóstico: o ECG no contexto dos critérios formais](#diagnostico-o-ecg-no-contexto-dos-criterios-formais)
-   [Manejo e restrição de atividade física](#manejo-e-restricao-de-atividade-fisica)
-   [Perguntas frequentes](#perguntas-frequentes)
-   [Conclusão](#conclusao)

## Por que o ECG importa na miocardite?

Você está diante de um jovem de 22 anos com dor torácica aguda após uma síndrome gripal recente. O ECG mostra supradesnivelamento de ST difuso. O reflexo imediato é ativar o protocolo de IAM — mas e se o diagnóstico for outro? A **miocardite aguda** é uma condição inflamatória do miocárdio que, com frequência, imita o infarto no eletrocardiograma, e reconhecer esse padrão pode mudar completamente o fluxo de investigação e manejo do paciente.

O **eletrocardiograma (ECG)** ocupa um papel paradoxal na miocardite: é um dos primeiros exames solicitados diante de qualquer suspeita clínica, integra os critérios diagnósticos das diretrizes internacionais, mas apresenta **baixa sensibilidade e especificidade indeterminada** quando analisado de forma isolada. Segundo a revisão de Buttà et al. (Ann Noninvasive Electrocardiol 2020), a sensibilidade do ECG para o diagnóstico de miocardite gira em torno de **~47%** — ou seja, em pouco mais da metade dos casos a doença pode não deixar rastro eletrocardiográfico significativo.

Ainda assim, conforme as **Diretrizes ESC 2025 para miocardite e pericardite** e a **Diretriz de Miocardites da SBC 2022**, diante de qualquer alteração eletrocardiográfica nova e inexplicada, a miocardite deve ser sempre considerada e excluída no diagnóstico diferencial. Para o residente e o médico generalista, dominar os padrões de ECG na miocardite não é apenas uma questão de prova — é uma competência que pode salvar vidas na urgência.

* * *

## Definição, epidemiologia e relevância clínica

A **miocardite** é definida como uma doença inflamatória do miocárdio, diagnosticada por critérios histológicos, imuno-histoquímicos e/ou imunológicos estabelecidos, conforme o Position Statement do Working Group on Myocarditis da ESC (Eur Heart J 2013;34:2636), documento adotado integralmente pela Diretriz de Miocardites da SBC 2022 (Arq Bras Cardiol 2022;119(1):143-211). A etiologia é ampla — infecciosa (predominantemente viral), imunomediada ou tóxica — e o espectro clínico varia de formas oligossintomáticas a apresentações fulminantes com choque cardiogênico.

Do ponto de vista epidemiológico, a miocardite tem relevância particular em populações jovens. Segundo dados do Am J Cardiol (2021; PMID 33347841), a miocardite responde por aproximadamente **20% das mortes súbitas cardíacas em adultos com menos de 40 anos**, incluindo atletas e recrutas militares, com predomínio masculino (~76%) e idade média em torno de 19 anos nessas séries. Esse dado reforça a importância do reconhecimento precoce: uma alteração no ECG de triagem pode ser o único sinal antes de uma arritmia maligna.

A apresentação clínica síncope-e-morte-subita-jovens pode incluir dor torácica aguda (muitas vezes pleurítica), dispneia, fadiga, palpitações, síncope ou, nas formas graves, choque cardiogênico de início súbito. Em jovens que se apresentam com esses sintomas após infecção viral recente, o ECG é o primeiro passo na triagem, ainda que seus resultados devam ser sempre contextualizados com a clínica, troponina e, quando disponível, ressonância magnética cardíaca.

* * *

## Fisiopatologia das alterações eletrocardiográficas

Para entender por que o ECG se altera na miocardite, é preciso compreender o substrato anatômico. O processo inflamatório — mediado por infiltrado leucocitário e citocinas — afeta de forma heterogênea o miocárdio ventricular e, em muitos casos, o pericárdio adjacente (miopericardite). Esse comprometimento heterogêneo cria **zonas de condução lenta, bloqueio e repolarização anormal** que se traduzem nas diversas alterações do ECG.

O **edema miocárdico** altera as propriedades dielétricas do tecido, podendo reduzir a amplitude dos potenciais de ação locais — o que explica a **baixa voltagem do QRS** observada em alguns casos. Quando o processo inflamatório compromete o sistema de condução (nó sinusal, nó AV, feixes de condução), surgem as bradiarritmias e os **bloqueios atrioventriculares (BAV)**. Já o comprometimento da membrana do cardiomiócito por necrose e lesão celular altera a **repolarização ventricular**, gerando as alterações de ST-T que mimetizam o padrão isquêmico.

Nas formas com comprometimento pericárdico concomitante pericardite-aguda-diagnostico-ecg, o processo inflamatório difuso da superfície epicárdica cria o substrato para o padrão clássico de supra de ST côncavo e depressão de PR. Essa sobreposição anatômica — miocardite com pericardite associada (miopericardite) — é extremamente comum e ajuda a explicar a heterogeneidade dos padrões eletrocardiográficos descritos na literatura.

* * *

## Os principais achados eletrocardiográficos

### Taquicardia sinusal e alterações inespecíficas de ST-T

A **alteração eletrocardiográfica mais frequente** na miocardite aguda é a **taquicardia sinusal** associada a alterações inespecíficas do segmento ST e da onda T. A taquicardia reflete o grau de inflamação sistêmica e/ou comprometimento hemodinâmico, sendo um sinal inespecífico mas sensível de que algo está errado — especialmente quando surge após um quadro viral em paciente jovem.

As **alterações de onda T** incluem inversão difusa, achatamento e ondas T bifásicas, sem localização anatômica precisa em território coronariano. Quando isoladas, têm valor diagnóstico limitado, mas quando surgem no contexto clínico correto e associadas à elevação de troponina, aumentam consideravelmente a suspeição.

### Supradesnivelamento de ST: o sinal mais estudado

A **prevalência do supradesnivelamento de ST** na miocardite aguda varia amplamente entre os estudos — de **24% a 73%** — refletindo a heterogeneidade das populações estudadas e dos critérios diagnósticos utilizados (Buttà et al. 2020). Dois padrões morfológicos principais são descritos:

**Padrão tipo pericardite (miopericardite):** o supra de ST é **côncavo para cima**, geralmente com amplitude inferior a 5 mm, **difuso**, envolvendo derivações dos membros e precordiais de forma não localizada. Esse padrão é frequentemente acompanhado de **depressão do segmento PR** — sinal clássico de comprometimento pericárdico — que ocorre difusamente, exceto em aVR e V1 (onde a deflexão é inversa). Define-se depressão patológica do PR quando a amplitude ultrapassa **≥0,5 mm** abaixo da linha de base.

**Padrão tipo infarto (pseudoinfarto):** o supra de ST é **retificado ascendente ou convexo**, presente em pelo menos duas derivações contíguas, mimetizando um STEMI. O dado-chave aqui é a **ausência de depressão recíproca de ST** (exceto em aVR), o que não é típico do IAM verdadeiro. Esse padrão ocorre quando a inflamação é focal, afetando um segmento miocárdico de forma predominante.

### Como diferenciar miocardite de STEMI no ECG?

Esta é possivelmente a questão mais importante do ponto de vista prático diagnostico-diferencial-dor-toracica-aguda. Segundo a revisão de Buttà et al. 2020, os achados que favorecem **miocardite sobre IAM** são:

-   **Supra de ST em múltiplos territórios coronarianos** (difuso, não respeitando a anatomia de uma artéria específica)
-   **Ausência de depressão recíproca de ST** (exceto em aVR)
-   **Alterações de motilidade parietal difusas ou ausentes** no ecocardiograma (em vez de focais, como no IAM)
-   Contexto clínico: idade jovem, síndrome viral recente, ausência de fatores de risco cardiovascular

Vale ressaltar: nenhum desses achados isola o diagnóstico. A coronariografia ou angiotomografia de coronárias pode ser necessária para excluir DAC obstrutiva, especialmente quando o padrão é focal.

### Ondas Q patológicas

As **ondas Q patológicas** têm prevalência geralmente inferior a 20% na miocardite aguda. Quando presentes, podem ser um dos sinais mais precoces da doença e associam-se a pior prognóstico, refletindo áreas de necrose ou comprometimento transmural focal. Sua presença em derivações que não correspondem a um território coronariano específico aumenta a suspeição de miocardite.

### Baixa voltagem do QRS

A **baixa voltagem do QRS** — definida classicamente como amplitude inferior a 5 mm em todas as derivações dos membros e/ou inferior a 10 mm em todas as derivações precordiais — pode ocorrer na miocardite como resultado de edema miocárdico extenso e/ou derrame pericárdico associado. Quando presente em contexto agudo sem causa estrutural evidente, deve levantar suspeita de processo inflamatório ativo.

### Bloqueios atrioventriculares e de condução

Os **bloqueios atrioventriculares** são manifestações particularmente relevantes na miocardite, tanto pelo seu valor diagnóstico quanto pelo seu significado prognóstico. Na miocardite aguda em geral, o BAV de 1º grau ocorre em aproximadamente **4,5%** dos casos, enquanto o BAV avançado ou total é descrito em cerca de **15,5%**. Nas formas fulminantes, o BAV total foi descrito em até **40%** dos pacientes.

Um contexto específico merece destaque: a **cardite de Lyme** (Borrelia burgdorferi) tem como manifestação cardíaca predominante o bloqueio AV — com BAV de 1º grau em **87–90%** e BAV total em **44–53%** dos casos. Todo paciente com BAV de instalação aguda e contexto epidemiológico compatível (exposição a carrapatos, área endêmica) deve ser investigado para Lyme doencas-infecciosas-coracoes.

O **bloqueio de ramo** — particularmente o direito — é frequente (~48%) nas formas fulminantes. O QRS alargado pode ser o primeiro sinal de que a doença está evoluindo para um curso grave.

* * *

### Os principais achados eletrocardiográficos

-   ✓ Supra de ST em múltiplos territórios coronarianos (difuso, não respeitando a anatomia de uma artéria específica) 
-   ✓ Ausência de depressão recíproca de ST (exceto em aVR) 
-   ✓ Alterações de motilidade parietal difusas ou ausentes no ecocardiograma (em vez de focais, como no IAM) 
-   ✓ Contexto clínico: idade jovem, síndrome viral recente, ausência de fatores de risco cardiovascular 

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## Marcadores eletrocardiográficos de prognóstico

O ECG não serve apenas para o diagnóstico — ele também carrega informações prognósticas relevantes na miocardite. Segundo Buttà et al. 2020 e em consonância com a Diretriz de Miocardites da SBC 2022, os achados associados a **pior prognóstico** incluem:

-   **Onda Q patológica**
-   **QRS alargado** (≥120 ms)
-   **Ângulo QRS/T ≥100°** — marcador de dispersão de repolarização, associado a pior desfecho em coortes exploratórias, embora sem validação prospectiva robusta que permita utilizá-lo como critério diagnóstico de diretriz
-   **Intervalo QT prolongado**
-   **BAV de alto grau**
-   **Taquiarritmia ventricular maligna** (taquicardia ou fibrilação ventricular)

O **QRS ≥120 ms** merece atenção especial. Em análise multivariada de uma coorte de 51 pacientes (PMC7961242), foi a única variável eletrocardiográfica independentemente preditiva de curso fulminante (HR 21,9; IC95% 1,8–269,0; p=0,016). Os limites do intervalo de confiança extremamente amplos refletem o tamanho pequeno da amostra — esse dado deve ser interpretado como evidência exploratória, não como estimativa pontual confiável, mas a direção do efeito é consistente com o dado clínico.

Quanto ao **QTc prolongado**, uma coorte de 40 pacientes (PMC4816921) demonstrou que o QTc foi preditor independente de miocardite fulminante (OR 1,03 por ms; IC95% 1,00–1,07; p=0,04), com um cutoff de **429 ms** apresentando sensibilidade de 88,9% e especificidade de 77,3% para curso fulminante nessa amostra. Por se tratar de coorte pequena, esse valor não deve ser utilizado como critério diagnóstico de diretriz, mas como marcador de alerta em pacientes com apresentação clínica grave.

Em contrapartida, o **supradesnivelamento de ST com padrão típico de repolarização precoce** associa-se a **melhor prognóstico** — provavelmente porque reflete comprometimento pericárdico superficial (miopericardite) em vez de miocardite miocárdica profunda.

A identificação precoce de marcadores de gravidade no ECG é crucial para definir o nível de monitoramento e a necessidade de suporte avançado choque-cardiogenico-manejo-uti.

* * *

### Marcadores eletrocardiográficos de prognóstico

-   ✓ Onda Q patológica 
-   ✓ QRS alargado (≥120 ms) 
-   ✓ Ângulo QRS/T ≥100° — marcador de dispersão de repolarização, associado a pior desfecho em coortes exploratórias, embora sem validação prospectiva robusta que permita utilizá-lo como critério diagnóstico de diretriz 
-   ✓ Intervalo QT prolongado 
-   ✓ BAV de alto grau 
-   ✓ Taquiarritmia ventricular maligna (taquicardia ou fibrilação ventricular) 

## Diagnóstico: o ECG no contexto dos critérios formais

O ECG isolado não diagnostica miocardite. Ele integra um conjunto estruturado de critérios que define a probabilidade diagnóstica. Conforme o **ESC Position Statement on Myocarditis 2013** — adotado pela Diretriz da SBC 2022 —, o diagnóstico de **miocardite clinicamente suspeita** exige:

-   **≥1 apresentação clínica** (dor torácica aguda, dispneia/fadiga, palpitação, arritmia, síncope, morte súbita, choque cardiogênico inexplicado)
-   **+≥1 critério diagnóstico** de categoria diferente: alterações de ECG **ou** elevação de troponina **ou** anormalidade morfofuncional/edema/LGE em imagem cardíaca
-   Na ausência de DAC obstrutiva e de outra causa identificada

Em pacientes assintomáticos, exigem-se **≥2 critérios diagnósticos** para suspeição.

As **Diretrizes ESC 2025** para miocardite e pericardite (Eur Heart J 2025;46(40):3952) avançam para categorias de certeza diagnóstica: **miocardite definida** requer apresentação clínica comprovada por ressonância magnética cardíaca (RMC) ou biópsia endomiocárdica (EMB); **miocardite possível** inclui apresentação clínica com pelo menos um critério adicional quando RMC ou EMB são incertas ou indisponíveis.

A **ressonância magnética cardíaca** ressonancia-cardiaca-indicacoes-clinicas é o exame de imagem padrão-ouro não invasivo. Os critérios de Lake Louise atualizados (2018) exigem um critério baseado em T2 (edema) e um critério baseado em T1 (lesão não isquêmica — T1 nativo elevado, expansão do volume extracelular ou LGE positivo). Quando ambos estão presentes, fala-se em miocardite provável; quando apenas um, em possível. O mapeamento paramétrico T1 nativo demonstrou sensibilidade de ~83% e especificidade de ~86% (AUC 0,91) em meta-análise (PMC6192699).

A biópsia endomiocárdica permanece o padrão histológico, com critério imuno-histoquímico de ≥14 leucócitos/mm² (incluindo até 4 monócitos/mm²) e ≥7 linfócitos T CD3+/mm² — embora as ESC 2025 reconheçam que esses limiares estão sob revisão pela cardiopatologia contemporânea.

* * *

## Manejo e restrição de atividade física

O manejo da miocardite está além do escopo do ECG, mas uma implicação prática direta dos achados eletrocardiográficos diz respeito à **restrição de exercício físico** — tema especialmente relevante em atletas.

Conforme as **Diretrizes ESC 2025**, a abordagem é individualizada, com restrição mínima de exercício de **1 mês** seguida de reavaliação dirigida. As diretrizes ESC de Cardiologia Esportiva de 2020 recomendavam período mais conservador de 3 a 6 meses de inatividade, com reavaliação por ECG, Holter, teste ergométrico e RMC antes do retorno ao esporte. A presença de **arritmias ventriculares, QRS alargado, BAV de alto grau ou disfunção ventricular** são achados que impõem restrição mais prolongada e reavaliação rigorosa antes da liberação.

A miocardite ativa é uma das principais contraindicações ao exercício competitivo cardiologia-esportiva-retorno-atividade, e o ECG de acompanhamento é parte obrigatória da avaliação de retorno.

* * *

## Perguntas frequentes

### O ECG normal exclui miocardite?

Não. A sensibilidade do ECG para miocardite é de apenas ~47%, segundo Buttà et al. 2020. Isso significa que praticamente metade dos casos de miocardite pode cursar com ECG normal ou com alterações sublimiares. Um ECG normal não exclui o diagnóstico — a avaliação deve incluir troponina, ecocardiograma e, quando indicada, ressonância magnética cardíaca.

### Qual é a diferença entre miopericardite e miocardite no ECG?

A miopericardite é o comprometimento simultâneo do miocárdio e do pericárdio. No ECG, o padrão dominante é o de pericardite: supra de ST côncavo difuso, depressão do segmento PR, sem depressão recíproca. Na miocardite pura, pode haver tanto esse padrão quanto o padrão tipo pseudoinfarto (convexo, mais focal). Na prática, a distinção é clínica, bioquímica e por imagem — o ECG orienta mas não define.

### BAV de instalação aguda em jovem: quando pensar em miocardite?

Sempre que um BAV se instala de forma aguda em paciente jovem, sem cardiopatia estrutural prévia, o diagnóstico de miocardite deve estar na lista de suspeitas — especialmente se houver contexto viral recente, síndrome gripal ou exposição a carrapatos (para excluir cardite de Lyme). A cardite de Lyme é particularmente associada a BAV: BAV de 1º grau ocorre em 87–90% e BAV total em 44–53% dos casos reportados.

### QRS alargado na miocardite: qual é o significado?

O QRS ≥120 ms é um marcador de alerta. Em análise exploratória de coorte pequena (n=51), foi a única variável eletrocardiográfica independentemente preditiva de curso fulminante. Sua presença, especialmente na forma de bloqueio de ramo, deve acionar monitoramento intensivo e avaliação para suporte hemodinâmico precoce.

### Todo supra de ST em jovem deve acionar o protocolo de STEMI?

Em pacientes jovens com supra de ST e contexto viral recente, a miocardite deve ser considerada antes de acionar o laboratório de hemodinâmica de urgência. Os elementos que favorecem miocardite: supra difuso em múltiplos territórios, ausência de depressão recíproca, padrão côncavo. Os que favorecem STEMI: supra focal em território coronariano, depressão recíproca, elevação de enzimas com curva típica de IAM. Na dúvida, a estratégia de investigação deve incluir troponina seriada, ecocardiograma imediato e, se necessário, coronariografia para excluir oclusão aguda.

* * *

## Conclusão

O **eletrocardiograma na miocardite** é um instrumento de dupla utilidade: levanta a suspeita diagnóstica quando revela alterações em contexto clínico compatível, e orienta o prognóstico quando identifica marcadores de gravidade. Suas limitações — baixa sensibilidade (~47%) e especificidade indeterminada — exigem que seja interpretado sempre em conjunto com a troponina, o ecocardiograma e, quando disponível, a ressonância magnética cardíaca.

Os padrões de ECG que você deve reconhecer imediatamente são: taquicardia sinusal com alterações inespecíficas de ST-T (o achado mais comum), supra de ST difuso côncavo com depressão de PR (padrão miopericardite), supra de ST convexo sem depressão recíproca (padrão pseudoinfarto), BAV de instalação aguda e QRS alargado. Este último, junto com ondas Q, intervalo QT prolongado e taquiarritmias ventriculares, integra o grupo de **achados de mau prognóstico** que exigem monitoramento intensivo e avaliação para formas fulminantes.

Conforme as Diretrizes ESC 2025 e a Diretriz de Miocardites da SBC 2022, o ECG integra os critérios de suspeição clínica — mas o diagnóstico definitivo de miocardite é firmado por ressonância magnética cardíaca ou biópsia endomiocárdica. Reconhecer o ECG da miocardite é, portanto, o primeiro passo para conduzir a investigação na direção certa — e, nos casos graves, pode ser o fator decisivo entre o diagnóstico precoce e a evolução para parada cardíaca.

DL

★ Caso nº 1 · role-model M.A.E.S.T.R.O.® 

Sobre a autora

### Dra. Lara Santos Rocha

Residente de Clínica Médica — HC-USP-RP (FMRP-USP) · CRM-SP 285250 

Médica residente de Clínica Médica no HC-USP-RP. Vive a preparação para residência por dentro — e revisa o conteúdo do blog com esse olhar prático.

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